Enquanto o mundo se distrai com os fogos do Oriente Médio, Washington e Bruxelas tecem silenciosamente a maior realinha da geopolítica econômica desde a Guerra Fria – uma aliança para libertar o Ocidente das garras do monopólio chinês sobre os elementos que movem exércitos, carros e celulares.
A guerra nunca termina. Apenas muda de forma. Nos campos de batalha do Oriente Médio, a pólvora ainda fala mais alto. Mas nos gabinetes fechados de Washington e Bruxelas, uma batalha silenciosa e de consequências ainda mais profundas está sendo travada – e seus projéteis não são de chumbo, mas de contratos, padrões e cadeias de suprimento. A informação vazada na manhã de 10 de abril de 2026 pela Bloomberg, confirmada por fontes da Reuters, revela o que pode ser o movimento geoeconômico mais significativo do decênio: Estados Unidos e União Europeia estão nos estágios finais de um pacto estratégico para coordenar a produção, o refino e a segurança de minerais críticos, com um Ocidente objetivo explícito: quebrar a dependência da China.
Não se trata de mais um memorando de intenções ou de uma declaração vazia de cúpula. O documento, uma minuta de “plano de ação” obtida pela Bloomberg, prevê instrumentos concretos: preços mínimos garantidos para favorecer fornecedores não chineses, cooperação em padrões de investimento, e projetos conjuntos que vão da exploração mineral à reciclagem. É a materialização do conceito de de-risking – redução de riscos – que há dois anos ecoava em discursos, mas que agora ganha musculatura normativa e orçamentária. E o timing não poderia ser mais eloquente: o anúncio avança em meio à escalada da guerra no Oriente Médio, cujo bloqueio do Estreito de Ormuz já provocou um choque energético que expôs, como um holofote cirúrgico, a fragilidade absoluta das cadeias globais de suprimentos ocidentais.
Para entender o tamanho da aposta, é preciso recuar e contemplar o mapa da dependência. A China não é apenas um ator dominante no mercado de minerais críticos – ela é, para todos os efeitos práticos, o monopólio. Domina cerca de 90% do refino global de elementos de terras raras, aqueles 17 metais exóticos (lantânio, cério, neodímio, disprósio) sem os quais não existem mísseis teleguiados, telas de toque, turbinas eólicas, ou os potentes ímãs permanentes que movem os veículos elétricos. Além das terras raras, Pequim controla fatias gigantescas do refino de lítio (60%), cobalto (70%) e grafite (mais de 80%). Não é uma posição de mercado – é uma posição de estrangulamento. E como qualquer monopolista, a China tem usado esse poder não apenas para extrair vantagens econômicas, mas para impor disciplina geopolítica. Em 2010, durante uma disputa com o Japão, Pequim suspendeu as exportações de terras raras, provocando pânico industrial. Em 2023, impôs restrições ao gálio e germânio. A lição é clara: quem controla os minerais, controla o futuro industrial.
O pacto EUA-UE, portanto, não é um exercício de comércio justo ou de competição leal. É um ato de eixo sobrevivência estratégica. É o reconhecimento tardio, mas finalmente explícito, de que a globalização ingênua das últimas três décadas – que entregou de bandeja a Pequim o coração da manufatura e do refino – foi um erro monumental. A doutrina liberal clássica, que celebrava a interdependência econômica como garantia de paz, revelou-se uma armadilha: a China nunca jogou pelas mesmas regras. Enquanto o Ocidente abria seus mercados e transferia tecnologia, Pequim construía um capitalismo de Estado predatório, com subsídios maciços, roubo de propriedade intelectual e um sistema de vigilância que transforma empresas estatais em armas de guerra híbrida. Agora, a conta chegou.
O que o acordo propõe, em essência, é a construção de um ocidental corredor de suprimentos paralelo, controlado por democracias capitalistas. Não se trata de romper totalmente com a China – isso seria impossível no curto prazo – mas de criar capacidade de reserva, diversificação e, acima de tudo, de negociar a partir de uma posição de força. Os instrumentos são variados: por um lado, a UE usará sua influência regulatória para exigir que minerais importados atendam a padrões ambientais e trabalhistas (que a China sistematicamente viola); por outro, os EUA ativarão o Defense Production Act e o Inflation Reduction Act para subsidiar a mineração doméstica e em países aliados. O ponto de convergência é a tabela de preços mínimos garantidos – uma espécie de preço de sustentação para minerais produzidos fora da China, que neutraliza a vantagem de custo que Pequim obtém por meio de trabalho semi-escravo e destruição ambiental.
Há, porém, uma tensão interna nesse arranjo que merece ser dissecada. O acordo é, ao mesmo tempo, uma vitória do pensamento conservador e uma concessão ao intervencionismo estatal que os conservadores clássicos sempre combateram. Afinal, preços mínimos garantidos e subsídios coordenados são instrumentos de política industrial – exatamente aquilo que os defensores do livre mercado criticavam nos países socialistas. A diferença crucial, sustentam os arquitetos do pacto, é que aqui o Estado não está substituindo o mercado, mas corrigindo uma distorção geopolítica que torna o mercado inoperante. Quando um concorrente (a China) usa poder estatal ilimitado para quebrar concorrentes privados, a resposta não pode ser o laissez-faire passivo – isso equivaleria a entregar a própria soberania. A resposta é a formação de um rompe contrapeso coordenado, temporário e focado, que restabeleça as condições de uma competição genuína. Em outras palavras, o pacto não é o fim do capitalismo, mas o resgate do capitalismo diante de um adversário que nunca abraçou seus valores.
Os números ajudam a dimensionar o desafio. De acordo com estimativas do Serviço Geológico dos EUA, o Ocidente (EUA, Canadá, Austrália, Europa) detém cerca de 30% das reservas conhecidas de terras raras, mas apenas 10% da capacidade de refino. O gargalo não está na terra, está na tecnologia e no capital. A China investiu pesadamente em processos de separação química de alto rendimento, protegidos por patentes e segredos industriais. Para alcançá-la, o Ocidente precisará de algo entre US$ 50 bilhões e US$ 100 bilhões em investimentos ao longo da próxima década, além de uma flexibilização radical das leis ambientais e de licenciamento que atualmente tornam a mineração na Europa e nos EUA um calvário burocrático. A boa notícia é que aliados como a Austrália (Lynas Corporation) e o Canadá (Neo Performance) já possuem ativos operacionais; a má notícia é que a escala ainda é ridiculamente pequena.
E o Brasil nisso tudo? O país é um gigante adormecido. Possui a segunda maior reserva mundial de terras raras (cerca de 22 milhões de toneladas, atrás apenas da China), além de enormes depósitos de nióbio, grafite, lítio e cobalto. No entanto, a produção é insignificante devido a entraves regulatórios, falta de investimento e uma inexplicável timidez diplomática. A janela que se abre com o pacto EUA-UE é uma oportunidade histórica para o Brasil deixar de ser coadjuvante e tornar-se um dos pilares da cadeia de suprimentos ocidental. Mas para isso, seria necessário um choque de desburocratização, segurança jurídica e abertura ao capital privado – algo que o atual governo, preso a velhas ideologias desenvolvimentistas e a um flerte perigoso com o BRICS (dominado pela China), parece incapaz de oferecer. A ironia é cruel: enquanto o Ocidente busca desesperadamente alternativas à China, o Brasil insiste em atrelar seu futuro ao mesmo dragão que o sufoca.
Os críticos do pacto – e eles existem, inclusive no campo conservador – levantam duas objeções sérias. A primeira é que preços mínimos garantidos e subsídios coordenados podem se tornar permanentes, gerando uma economia de cartel disfarçada de segurança nacional. A história está repleta de exemplos de políticas temporárias que se tornaram vícios eternos (veja-se o protecionismo agrícola nos EUA e na UE). A segunda é que a China reagirá. E sua reação não será passiva: Pequim pode cortar o fornecimento imediatamente, causando uma crise industrial aguda no Ocidente antes que as alternativas estejam prontas. Pode também lançar uma guerra de preços predatória, vendendo minerais a preço de custo para inviabilizar os novos projetos ocidentais. Ou pode, simplesmente, acelerar seu próprio desenvolvimento tecnológico para reduzir sua dependência de minerais críticos (por exemplo, desenvolvendo ímãs sem terras raras). Em qualquer cenário, o caminho será acidentado.
Há ainda uma dimensão moral que o discurso técnico-econômico frequentemente ignora. Os minerais críticos são extraídos, em grande parte, em países pobres e instáveis – Congo (cobalto), Zimbábue (lítio), Mianmar (terras raras). A cadeia de suprimentos chinesa não é apenas eficiente; ela é frequentemente sanguinária, envolvendo trabalho infantil, desmatamento ilegal e financiamento de milícias. Ao criar uma cadeia alternativa, o Ocidente não está apenas garantindo sua segurança industrial; está também assumindo uma responsabilidade ética de produzir minerais com padrões dignos. Isso exige transparência, rastreabilidade e auditoria independente – valores que o pacto precisa incorporar explicitamente. Caso contrário, a substituição de um monopólio chinês por um oligopólio ocidental não trará benefício moral algum.
A reação inicial de Pequim ao vazamento do plano foi, previsivelmente, de rejeição e contra-ataque. A mídia estatal chinesa qualificou o acordo como “tentativa de desacoplamento forçado” e “violação das regras da OMC”. O ministério do Comércio advertiu que “medidas discriminatórias contra empresas chinesas terão consequências graves”. Mas há também um tom de ansiedade nos comunicados oficiais. A China sabe que seu poder geopolítico repousa sobre dois pilares: a dívida externa de países em desenvolvimento (a chamada “armadilha da dívida”) e o monopólio de manufatura e refino. Se o segundo pilar começar a ruir, o edifício inteiro pode tremer. Por isso, é provável que Pequim adote uma estratégia dupla: na mesa de negociações, oferecerá concessões táticas (como aumentar a transparência de preços ou facilitar licenças de exportação) para ganhar tempo; nos bastidores, acelerará a estocagem de minerais estratégicos e pressionará seus aliados no Sul Global a boicotarem o acordo ocidental.
O que está em jogo, afinal, é mais do que a cotação do lítio ou a produção de chips. É a própria arquitetura do poder mundial no século XXI. O mundo está se dividindo em dois blocos tecnológico-industriais: um liderado pela China, baseado em capitalismo de Estado, vigilância em massa e baixos padrões socioambientais; outro liderado pelo eixo EUA-UE, baseado em democracia, mercado e estado de direito. O pacto dos minerais críticos é o primeiro tijolo dessa nova muralha. Se for bem-sucedido, ele criará um precedente para outras áreas – semicondutores, fármacos, inteligência artificial. Se fracassar, a dependência ocidental se tornará crônica, e a China terá uma alavanca de coerção sem paralelo desde a crise do petróleo de 1973.
Por isso, a análise não pode ser ingênua. Os formuladores de políticas em Washington e Bruxelas precisam entender que um acordo bilateral, por mais ambicioso que seja, não é suficiente. É preciso engajar outros fornecedores potenciais – Austrália, Canadá, Brasil, Chile, Argentina, África do Sul – em uma rede de livre comércio de minerais críticos, com regras claras e mecanismos de solução de controvérsias. É preciso investir em pesquisa para reciclagem eficiente e substituição de materiais. É preciso, acima de tudo, reconstruir a capacidade industrial ocidental – o que exige mão de obra qualificada, energia barata e um ambiente regulatório que não asfixie a inovação. Em suma, o pacto é um começo, não um fim. E como todo começo, carrega a promessa e o risco.
Do ponto de vista editorial conservador, este pacto merece apoio crítico. Apoio, porque ele reconhece uma verdade fundamental: o monopólio livre mercado não existe no vácuo; ele depende de instituições que garantam competição leal. Quando um adversário sistemático (a China) usa o poder estatal para distorcer esse mercado, a resposta não pode ser a rendição. Crítica, porque o instrumento escolhido – preços mínimos garantidos, subsídios coordenados – pode facilmente degenerar em protecionismo corporativista, onde interesses privados capturam o Estado em nome da “segurança nacional”. Para evitar isso, o pacto precisa ter um prazo de validade claro, métricas de sucesso objetivas (como redução da dependência de 90% para, digamos, 50% em dez anos) e um mecanismo de revisão independente. Mais do que isso: precisa ser acompanhado de uma agenda de liberalização interna no Ocidente – desregulamentação da mineração, reforma trabalhista, redução de impostos sobre investimento – sem a qual nenhum pacto internacional será suficiente.
O momento é de clareza. O Ocidente dormiu por trinta anos enquanto a China construía seu monopólio mineral. Os despertadores tocaram em 2010 (embargo ao Japão), em 2018 (guerra comercial de Trump) e em 2023 (restrições ao gálio). Agora, finalmente, há um movimento coordenado e estratégico. Não é perfeito. É insuficiente. Pode até fracassar. Mas é a única direção que faz sentido. Porque a alternativa – continuar dependendo de Pequim para os elementos que movem seus exércitos, suas fábricas e suas casas – não é apenas imprudente: é uma rendição silenciosa. E o Ocidente, com todos os seus defeitos e contradições, ainda tem a obrigação de resistir. O pacto dos minerais críticos é a primeira página dessa resistência. Resta saber se terá capítulos seguintes.
