Com propostas de redução de gastos públicos, reorganização do Estado e renegociação de dívidas, a campanha promete mudanças econômicas. Mas o que isso pode significar para quem tem MEI, comércio ou vende pela internet?
O Brasil se aproxima de uma decisão política que poderá influenciar os rumos da economia nos próximos anos. Flávio Bolsonaro (PL) avançou ao segundo turno das eleições presidenciais de 2026, marcado para 25 de outubro, e passou a concentrar a atenção de investidores, empresários e milhões de brasileiros que dependem do próprio trabalho para pagar as contas.
Para quem acompanha a política de longe, a disputa pode parecer apenas uma discussão entre partidos e candidatos. Para o pequeno empreendedor, porém, o resultado pode ter consequências muito concretas: o custo do crédito, o preço das mercadorias, o movimento do comércio, a carga tributária e a capacidade de manter um negócio funcionando.
A equipe econômica de Flávio Bolsonaro, com participação de Daniella Marques, ex-presidente da Caixa Econômica Federal, tem defendido mudanças na administração pública, controle de despesas e medidas para enfrentar o endividamento das famílias. São propostas que merecem atenção, mas também precisam ser examinadas com cuidado.
A pergunta que realmente importa não é apenas se o governo será mais à direita ou mais à esquerda. É saber se as medidas adotadas conseguirão melhorar o ambiente de negócios sem criar dificuldades adicionais para quem já trabalha com margens apertadas.
O que Flávio Bolsonaro pretende mudar na economia?
Entre as diretrizes apresentadas pela campanha estão a redução do número de ministérios, a revisão de despesas administrativas, a reformulação das regras fiscais e o incentivo à participação da iniciativa privada na economia.
A proposta parte de uma ideia conhecida entre economistas de orientação liberal: um Estado que gaste melhor, controle o crescimento de suas despesas e ofereça maior previsibilidade pode contribuir para reduzir pressões sobre os juros e estimular investimentos privados.
Na prática, existe uma lógica econômica nessa argumentação. Quando o governo transmite confiança sobre suas contas, pode ajudar a diminuir a percepção de risco do país. Isso favorece as condições para investimentos e, dependendo de outros fatores, pode contribuir para reduzir o custo do financiamento.
Mas existe uma diferença importante entre anunciar uma intenção e produzir um resultado. Cortar ministérios, por exemplo, não significa automaticamente economizar grandes quantias. Para que a medida tenha impacto, é necessário rever estruturas, contratos, despesas, processos e a distribuição de responsabilidades dentro do governo.
Além disso, reduzir gastos sem comprometer serviços essenciais exige planejamento. Uma economia mal executada pode gerar problemas em áreas que também são importantes para as empresas, como infraestrutura, educação, segurança e qualificação profissional.
Daniella Marques e a promessa de reorganizar as contas públicas
Daniella Marques ganhou destaque na equipe econômica de Flávio Bolsonaro ao defender uma reorganização administrativa e medidas para melhorar o controle das despesas públicas. Entre as ideias apresentadas estão a redução da estrutura ministerial e a busca por maior eficiência no funcionamento do Estado.
Outro tema relevante é o enfrentamento do endividamento. Marques afirmou que um eventual governo pretende propor um programa de renegociação de dívidas para ampliar a capacidade financeira das famílias. A proposta divulgada pela equipe também envolve o uso de ativos da União, embora seu funcionamento detalhado dependa de definições posteriores.
Esse debate interessa diretamente ao pequeno empreendedor. Uma família muito endividada costuma reduzir compras que não considera essenciais. Se esse comportamento se espalha, o impacto chega ao comércio de bairro, ao prestador de serviços, ao vendedor de roupas, à pequena loja virtual e ao profissional autônomo.
Se uma política de renegociação conseguir reduzir encargos, reorganizar pagamentos e recuperar parte do poder de compra das famílias, poderá contribuir para movimentar a economia. Entretanto, o resultado dependerá das condições oferecidas, dos critérios de participação, do custo do programa e da capacidade dos beneficiados de manter as dívidas sob controle.
Também é necessário observar como o governo pretende financiar suas medidas e quais serão as regras para evitar que a renegociação apenas adie o problema. Sem essas informações, ainda não é possível afirmar qual será o alcance real da iniciativa.
Para acompanhar o tema, vale consultar a cobertura da Folha de S.Paulo sobre as propostas econômicas apresentadas por Daniella Marques.
O que tudo isso pode significar para o MEI?
O Microempreendedor Individual é uma das portas de entrada mais importantes para quem deseja trabalhar formalmente por conta própria. Para esse público, as decisões econômicas precisam ser avaliadas de maneira objetiva: quanto custa manter a empresa, quanto sobra no fim do mês e quais oportunidades podem surgir para aumentar as vendas.
Uma política econômica favorável aos negócios pode ajudar, mas não existe uma relação automática entre a eleição de um presidente e a melhora imediata da situação financeira do MEI.
1. Impostos e burocracia
Uma administração pública mais simples pode reduzir o tempo gasto com obrigações administrativas e facilitar a abertura e a manutenção de empresas. Esse é um objetivo relevante, especialmente para quem não possui dinheiro para contratar uma equipe contábil ou administrativa completa.
Entretanto, é preciso distinguir a simplificação de procedimentos da redução efetiva dos impostos. São coisas diferentes. Para o pequeno empreendedor, o que importa é conhecer o custo final, as regras de enquadramento e as obrigações que continuarão existindo.
Qualquer mudança tributária dependerá das medidas concretamente apresentadas e, conforme o caso, de aprovação legislativa. Por isso, o empreendedor não deve tomar decisões financeiras com base apenas em promessas eleitorais.
2. Crédito para investir e crescer
O crédito é um dos maiores desafios para pequenos negócios. Muitos empreendedores precisam financiar estoque, comprar equipamentos, investir em publicidade ou cobrir o intervalo entre uma venda e o recebimento do pagamento.
Se as condições econômicas contribuírem para uma redução sustentável dos juros, os empréstimos poderão ficar menos caros ao longo do tempo. Mas a taxa básica de juros não é o único fator que determina quanto um MEI paga. O risco de inadimplência, as garantias, o prazo e as políticas de cada instituição financeira também influenciam o custo final.
Portanto, mesmo em um cenário econômico mais favorável, o empreendedor deverá comparar propostas, calcular o custo efetivo total e evitar assumir parcelas que dependam de vendas ainda não realizadas.
3. Vendas pela internet e consumo
Quem vende pela internet depende da renda disponível dos consumidores, do custo de aquisição de clientes, das taxas das plataformas e das despesas com entrega e atendimento.
Uma economia com inflação controlada, renda mais estável e crédito acessível pode favorecer o consumo. Porém, os resultados variam de acordo com o setor. Uma loja de roupas, um vendedor de peças automotivas e um prestador de serviços não respondem necessariamente da mesma forma às mudanças econômicas.
Além disso, a concorrência no comércio eletrônico continuará exigindo planejamento, boa apresentação dos produtos, atendimento confiável e controle rigoroso das margens.
4. O limite de faturamento do MEI continua sendo uma questão importante
O teto de faturamento é um tema especialmente relevante para os empreendedores que estão crescendo. O limite tradicional do MEI é de R$ 81 mil por ano, observadas as regras aplicáveis e as exceções previstas para determinadas situações.
Propostas de elevação desse limite estão em discussão política e legislativa, mas o empreendedor precisa diferenciar projetos em tramitação de regras já aprovadas e em vigor. Não é prudente organizar o negócio supondo que um novo teto já esteja valendo sem confirmar a legislação atualizada.
Uma eventual ampliação poderá dar mais espaço para o crescimento de determinados negócios dentro do regime simplificado. Por outro lado, qualquer alteração precisa ser analisada considerando os valores de contribuição, as obrigações e as condições de permanência no enquadramento.
Um Congresso de direita facilita a vida do futuro presidente?
Um dos elementos políticos mais importantes desta eleição é a presença expressiva de parlamentares de direita e centro-direita no Congresso Nacional. Caso Flávio Bolsonaro vença o segundo turno, essa composição poderá facilitar negociações em torno de parte de sua agenda.
Isso não significa, entretanto, que o presidente poderá governar sem negociar. O Congresso não funciona como um bloco único, e os partidos que compartilham determinadas posições políticas podem divergir sobre orçamento, interesses regionais, benefícios, reformas e distribuição de recursos.
Na Câmara dos Deputados e no Senado, a aprovação de projetos depende do tipo de proposta, do quórum exigido e da formação de maiorias. Mudanças constitucionais exigem apoio qualificado, superior ao necessário para aprovar leis ordinárias.
Assim, mesmo uma base parlamentar expressiva precisará construir acordos para aprovar reformas de maior alcance. O apoio político pode acelerar decisões, mas não elimina os limites institucionais nem garante que todas as propostas do Executivo sejam aprovadas.
Para o empreendedor, essa diferença é fundamental. Uma proposta de redução de despesas administrativas pode avançar por um caminho legislativo diferente daquele exigido por uma reforma constitucional ou por uma mudança ampla na tributação.
Também será importante observar se os parlamentares apoiarão medidas que produzam resultados duradouros, mesmo quando elas exigirem escolhas difíceis. A quantidade de aliados de um presidente importa, mas a qualidade dos acordos e a consistência das políticas públicas também fazem diferença.
Quais são os riscos de uma mudança econômica?
O mercado financeiro costuma reagir rapidamente às expectativas sobre uma eleição. A perspectiva de mudanças na política fiscal, na tributação ou na relação com o setor privado pode alterar preços de ações, câmbio e juros futuros antes mesmo de o novo governo tomar posse.
Essas reações, porém, não devem ser confundidas com uma melhora imediata na economia das famílias. A valorização da bolsa, por exemplo, não significa necessariamente aumento das vendas no pequeno comércio ou redução das despesas de uma empresa.
Um programa consistente de controle de gastos pode melhorar a confiança, mas medidas fiscais mal planejadas também podem reduzir a atividade econômica ou prejudicar serviços importantes. Da mesma forma, prometer crescimento acelerado sem explicar como ele será financiado não resolve as dúvidas de investidores e empresários.
O próprio programa econômico da campanha ainda precisa ser avaliado quanto à execução, aos custos e aos resultados esperados. Metas de crescimento, redução de despesas e queda dos juros dependem de condições econômicas e decisões que não estão sob o controle exclusivo do presidente.
Por isso, o eleitor e o empreendedor devem olhar além dos discursos. É necessário acompanhar os projetos apresentados, os números do orçamento, as decisões do Congresso e os indicadores efetivos da economia.
O que o pequeno empreendedor deve fazer enquanto espera?
Independentemente do resultado eleitoral, existem medidas que ajudam a proteger um pequeno negócio diante de períodos de incerteza política ou econômica.
- Organize o fluxo de caixa: registre receitas, despesas, impostos e compromissos futuros para saber quanto dinheiro realmente está disponível.
- Revise os preços: considere custos de compra, taxas de venda, frete, embalagem, impostos e possíveis devoluções antes de definir a margem.
- Evite dívidas sem planejamento: compare o custo total do crédito e calcule se o negócio conseguirá pagar as parcelas mesmo em meses de vendas mais fracas.
- Acompanhe as mudanças legais: confirme em fontes oficiais qualquer alteração no limite do MEI, nas contribuições ou nas obrigações tributárias.
- Diversifique os canais de venda: avalie diferentes formas de alcançar clientes, sem depender exclusivamente de uma plataforma ou de um único fornecedor.
- Invista em produtividade: melhore o atendimento, controle o estoque e acompanhe quais produtos realmente deixam lucro.
Essas ações não eliminam os efeitos de uma crise econômica, mas ajudam o empreendedor a tomar decisões com base em números, em vez de depender de expectativas políticas.
O que esperar de um possível governo Flávio Bolsonaro?
Uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro poderá abrir espaço para uma agenda mais orientada ao controle das despesas públicas, à reorganização administrativa e ao estímulo à iniciativa privada. Para quem empreende, esses objetivos podem representar oportunidades se forem convertidos em regras claras, estabilidade econômica e condições melhores para investir e contratar.
Entretanto, ainda será necessário verificar como as propostas serão financiadas, quais medidas chegarão ao Congresso e quais resultados poderão ser medidos. A redução de burocracia, o acesso ao crédito e a simplificação tributária só terão valor concreto se melhorarem a rotina e a saúde financeira das empresas.
Também será necessário acompanhar a atuação do Congresso. Uma base parlamentar favorável pode facilitar a aprovação de determinadas medidas, mas não substitui o debate, a negociação e a responsabilidade na elaboração das políticas públicas.
Para o pequeno empreendedor, a melhor postura é acompanhar as propostas sem apostar o futuro da empresa em promessas de campanha. O cenário político pode mudar, mas a necessidade de vender com margem, manter as contas organizadas e conquistar clientes permanece.
No fim das contas, o que importa não é apenas quem ocupará o Palácio do Planalto, mas se as decisões tomadas em Brasília vão ajudar quem trabalha, produz, vende e movimenta a economia todos os dias.
Fontes para acompanhar o debate econômico
- UOL — Principais propostas do plano de governo de Flávio Bolsonaro
- Exame — Redução de ministérios e gastos públicos na agenda econômica
- Folha de S.Paulo — Daniella Marques e as propostas para endividados
- UOL Economia — O novo Congresso e a agenda econômica
- Portal oficial do empreendedor — Informações e orientações sobre o MEI
Nota editorial: esta reportagem analisa propostas e cenários políticos. As medidas mencionadas dependem de decisões futuras e não representam resultados econômicos garantidos.









