Em um movimento que desafia a lógica econômica imediata, o dólar registrou sua quinta queda consecutiva no Brasil, fechando esta sexta-feira (8/8) a R$ 5,441, mesmo sob o peso de sanções comerciais impostas pelos Estados Unidos e um cenário fiscal doméstico frágil.
A moeda americana acumula desvalorização de 1,96% em apenas sete dias, tocando o menor patamar desde 24 de julho, quando operava a R$ 5,416 .
O paradoxo explicado: ventos globais superam tempestades locais
Fatores externos lideram a reversão.
– Expectativa de afrouxamento monetário nos EUA: Dados decepcionantes do mercado de trabalho americano – com apenas 73 mil vagas criadas em julho, bem abaixo das 100 mil projetadas – aumentaram para 93% a probabilidade de cortes de juros pelo Federal Reserve em setembro. Isso enfraqueceu o dólar globalmente, beneficiando moedas emergentes como o real .
-Alívio tarifário estratégico
Apesar da retórica agressiva do governo Trump, cerca de 700 produtos brasileiros – incluindo suco de laranja e aeronaves – foram isentos da tarifa extra de 50% anunciada em julho. A medida funcionou como um amortecedor contra impactos cambiais mais severos .
Fragilidades domésticas persistem.
Analistas destacam que a queda não reflete solidez interna. O Brasil encerrou 2024 com o real como a moeda mais desvalorizada entre 27 economias analisadas, acumulando perdas de 27% no ano. As incertezas fiscais seguem como “espada de Dâmocles” sobre o câmbio, nas palavras de Alexandre Cabral, professor da Saint Paul Escola de Negócios: “Brasília é uma surpresa. Qualquer coisa que desagradar pode fazer [o câmbio] voltar a piorar”
Dinâmica do mercado: entre a cautela e a especulação
O relatório Focus do Banco Central revela que analistas mantêm a projeção de dólar a R$ 5,65 no final de 2025 , sinalizando ceticismo sobre a sustentabilidade da queda recente. A volatilidade permanece elevada:
– Na última semana, a moeda oscilou entre R$ 5,416 (mínima em 7/8) e R$ 5,542 (máxima em 2/8) .
– Setores exportadores, como agronegócio e mineração, já ajustam estratégias para aproveitar a brecha de valorização do real, enquanto importadores respiram aliviados com custos menores .
- Perspectivas para a próxima semana: olho no Fed e em Trump
Para os próximos dias, analistas projetam:
– **Cenário-base (60% de probabilidade)**: Dólar entre R$ 5,48 e R$ 5,53, desde que o Fed mantenha sinais de corte de juros e não haja novas escaladas tarifárias .
– Risco de alta (35%): Eventuais ameaças de Trump ou dados fracos da economia brasileira podem empurrar a moeda para R$ 5,60 até sexta-feira (15/8). O foco estará nas relações EUA-Brasil e no IPC brasileiro de julho .
– Cenário extremo (5%): Ruptura fiscal doméstica ou adiamento de cortes de juros nos EUA poderiam reacender fuga de capitais, levando o dólar a R$ 5,80 até setembro .
A lição dos números: calmaria passageira
Os gráficos contam uma história de alívio temporário: após atingir pico de R$ 6,22 em janeiro de 2025 , o dólar vem cedendo terreno, mas permanece 22% acima dos patamares pré-sanções. Como resume Einar Rivero, analista da Elos Ayta: “A recuperação do real dependerá de reformas estruturais capazes de atrair, aliadas a um ambiente externo mais favorável”.
► O veredito: A trégua cambial das últimas semanas é mais um reflexo de ventos globais favoráveis do que de fundamentos brasileiros sólidos. Na próxima sexta-feira, quando o mercado fechar os olhos para mais uma semana volátil, o dólar deverá testar os R$ 5,50 – um alívio tênue para consumidores e importadores, mas sinal amarelo para um país que ainda não resolveu seu quebra-cabeça fiscal.
*C contribuição de Fernando Costa














