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O Brasil vive uma transformação econômica silenciosa e irreversível: dados do Sebrae revelam que 48% dos 52 milhões de empreendedores do país são mulheres, com crescimento de 38% entre 2020 e 2025.

Esse avanço, porém, esbarra em barreiras históricas como disparidade de crédito, jornada tripla e preconceito de gênero, que desafiam 10,3 milhões de brasileiras. O perfil dessas empreendedoras mostra que 48,5% têm entre 35 e 54 anos, com renda média de R$ 2 mil — 14% inferior à masculina (R$ 2.737) — mas superior em escolaridade: 28% possuem ensino superior contra 17% dos homens. Setores como artesanato criativo, alimentação artesanal, moda autoral e serviços de beleza lideram a expansão, impulsionados por baixo custo inicial (60% dos negócios começam com menos de R$ 5 mil) e digitalização.

A motivação principal reflete desigualdades estruturais: 55% empreendem por necessidade, buscando autonomia após desemprego ou subemprego, tendência acelerada pela pandemia e pelo trabalho remoto.

O acesso a crédito permanece o maior obstáculo. Na Conferência Livre de Empreendedorismo Feminino (Brasília, 11/08), líderes como Dora Gomes (Grupo Mulheres do Brasil) denunciaram critérios excludentes: mulheres periféricas, sem garantias patrimoniais, representam 70% das rejeições em bancos tradicionais, apesar de serem melhores pagadoras (taxas de inadimplência inferiores). Programas como Elas Empreendem (coalizão com Banco do Brasil e BNDES) priorizam mulheres do CadÚnico, mas operam em escala limitada. A jornada tripla agrava o cenário: 51% dedicam mais de 40 horas semanais aos negócios — ante 71% dos homens —, conciliando trabalho com cuidados domésticos não compartilhados. “O dia tem 24 horas para todos, mas elas carregam a casa e os filhos sozinhas”, resume Renata Malheiros, gestora do Sebrae DELAS.

A discriminação persiste: 25% relatam preconceito direto, índice que salta para 47% no Sul em ambientes empresariais.

Respostas institucionais emergem para romper ciclos. Linhas de financiamento como Desenvolve Mulher (SP) liberaram R$ 184 milhões para MPMEs femininas, com taxas reduzidas, 36 meses de carência e prazos de 120 meses, permitindo que academias e ateliês expandissem operações. A Conferência de Brasília propôs fundos públicos com Fintechs, usando “histórico comunitário” (não patrimônio) como critério.

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Capacitação em massa ganha força: a Carreta do Empreendedorismo (SP) percorre municípios com cursos gratuitos do Senac e Sebrae; em Itapeva (18/08), focou em gestão financeira e marketing digital para 1.000 mulheres. No Amazonas, o Empodera Mulher (Tefé) reuniu 1 mil pessoas em agosto com oficinas de IA e turismo sustentável. Participantes como Cláudia Marreira (Elohim Confecções) testemunham: “Quebrei seis vezes até aprender gestão com o Sebrae”. Redes de apoio multiplicam-se: o Sebrae DELAS oferece mentoria para 600 mulheres/ano, enquanto a Rede Mulher Empreendedora combate a solidão profissional com conexões entre líderes.

Casos emblemáticos ilustram a revolução. Meire Torres (Meire Presentes e Cosméticos), após capacitação no Sebrae, formalizou seu negócio e abriu loja física em Tefé, provando que “persistir vale a pena quando se ama o que faz”. No digital, mulheres dominam 54,6% das intenções de abrir empresas até 2026, usando Instagram e TikTok como vitrines para biojóias amazônicas e doces artesanais mineiros — setores onde representam 68% dos microempreendedores.

Apesar do crescimento quantitativo, o desafio é converter números em equidade. Raquel Ribeiro, do Ministério do Empreendedorismo, defende políticas que combinem crédito, educação e rede de cuidados (creches, segurança). A 5ª Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres (setembro/2025) será decisiva para incluir demandas como microcrédito acessível e licença-parental para MEIs. Como sintetiza Ana Fontes, fundadora da Rede Mulher Empreendedora: “O futuro é feminino, empreendedor e coletivo”. Resta ao Brasil transformar esse lema em infraestrutura concreta.

 

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