O ataque aéreo israelense que targetou líderes do Hamas em Doha no dia 9 de setembro de 2025 reverberou como um terremoto geopolítico no Oriente Médio, expondo a vulnerabilidade de nações aliadas dos Estados Unidos e colocando a administração Trump em uma encruzilhada estratégica.
Segundo apuração da equipe do TRATEAQUI Notícias, o evento não apenas violou a soberania do Qatar—país que abriga a maior base militar americana na região—mas também acelerou uma crise diplomática que força nações árabes a repensarem suas alianças e estratégias de segurança .
A cúpula de emergência da Liga Árabe e da Organização de Cooperação Islâmica, realizada em Doha em 15 de setembro, resultou em mais retórica do que ações concretas. Líderes de países como Irã, Turquia e Arábia Saudita condenaram veementemente o ataque, classificando-o como “covarde” e “terrorista“, mas não chegaram a um consenso sobre medidas punitivas significativas. O comunicado final do evento limitou-se a exortar países a “revisar relações diplomáticas e econômicas” com Israel, sem especificar compromissos concretos . A falta de unanimidade reflete divisões profundas: nações como Emirados Árabes Unidos e Bahrein—signatários dos Acordos de Abraham—relutam em romper laços com Tel Aviv, enquanto outras, como Irã e Malásia, pressionam por isolamento total de Israel .
O TRATEAQUI Notícias apurou que a postura do Qatar tem sido pivotal nesse cenário. O emir Sheikh Tamim bin Hamad Al Thani acusou Israel de sabotar deliberadamente as negociações de cessar-fogo em Gaza ao targetar membros do Hamas durante discussões de um proposta de trégua apoiada pelos EUA.
Em discurso inflamado, ele questionou:
“Se Israel deseja assassinar líderes do Hamas, por que se engajar em negociações?”
A afirmação ecoa a percepção regional de que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu privilegia a escalada militar sobre a diplomacia—uma estratégia que, segundo analistas, visa prolongar seu tempo no poder .
A resposta dos EUA, sob a liderança do presidente Donald Trump e do secretário de Estado Marco Rubio, tem sido ambígua. Embora Trump tenha afirmado que o Qatar é “um grande aliado” e pedido cautela a Israel, sua administração não condenou formalmente o ataque. Rubio, em visita a Netanyahu, reiterou o apoio americano ao “direito de Israel de se defender” e exigiu que o Hamas “deixe de existir como elemento armado” .
No entanto, fontes diplomáticas consultadas pelo TRATEAQUI Notícias indicam que Washington está pressionando Qatar em privado para manter seu papel de mediador, mesmo após a violação de sua soberania .
Economicamente, as consequências do ataque podem ser profundas. Nações do Golfo—incluindo Qatar, Arábia Saudita e Emirados Árabes—discutem medidas como restrições a investimentos em empresas israelenses ou uso de seus fundos soberanos para pressionar economicamente Israel. Esses países possuem trilhões de dólares em ativos globais e investimentos prometidos aos EUA, o que lhes confere influência significativa . No entanto, especialistas duvidam que ações radicais sejam tomadas, dada a dependência regional da proteção militar americana .
Militarmente, o Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) anunciou planos para “ativar mecanismos de defesa conjunta”, mas detalhes são escassos. A Península Shield Force—uma aliança militar regional—nunca foi efetivamente testada, e a dependência de hardware americano limita opções autônomas .
Para o TRATEAQUI Notícias, a real lição do ataque é que os EUA não podem—ou não querem—conter Israel, mesmo quando este targeta aliados estratégicos. Como resumiu um analista do Carnegie Endowment: “A operação eliminou a noção de que o Oriente Médio pode confiar na América para proteger suas terras” .
O ataque também reacendeu debates sobre a solução de dois Estados. O emir do Qatar alertou que a visão expansionista de Netanyahu—que ameaçou anexar partes da Cisjordânia—é uma “ilusão perigosa” . A recusa histórica de Israel em aceitar a Iniciativa de Paz Árabe de 2002, que oferecia normalização diplomática em troca da retirada de territórios ocupados, é agora vista como um erro catastrófico que alimentou ciclos de violência .
Enquanto isso, a população palestina em Gaza enfrenta níveis inimagináveis de sofrimento: mais de 64.000 mortes confirmadas, according to autoridades de saúde locais, e um risco constante de fome . O ataque a Doha desviou a atenção internacional dessa crise humanitária, mas também galvanizou esforços para reconhecimento unilateral de um Estado palestino na ONU—com países como França e Reino Unido planejando apoiar a medida .
Para o governo Netanyahu, o cálculo é claro: ações unilaterais trazem ganhos políticos domésticos, mesmo à custa do isolamento internacional. No entanto, o TRATEAQUI Notícias conclui que a escalada agressiva de Israel—incluindo violações de soberania em Líbano, Síria, Iêmen e agora Qatar—ameaça não apenas a estabilidade regional, mas também os interesses de longo prazo de Israel em coexistir com seus vizinhos. Como afirmou o presidente egípcio Abdel Fattah el-Sisi, as ações israelenses “colocam obstáculos diante de quaisquer oportunidades para novos acordos de paz e até mesmo abortam os existentes” .
O legado imediato do ataque a Doha é uma região mais polarizada, onde a confiança na diplomacia está erodida e a sombra de conflitos futuros se alonga. Se Arab states e potências ocidentais não encontrarem uma resposta coordenada—para além de “bombástia irritada”, como ironizou The Economist—a escalada pode atingir um ponto de não retorno .














