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A derrota eleitoral do presidente argentino Javier Milei na província de Buenos Aires no último domingo, 7 de setembro de 2025, desencadeou uma crise de confiança sem precedentes nos mercados financeiros, ameaçando o núcleo do projeto liberal que prometia resgatar a Argentina da hiperinflação e do colapso econômico.

Com 99% das urnas apuradas, o partido de Milei, La Libertad Avança, obteve apenas 33,7% dos votos contra 47,3% do bloco peronista – uma diferença de 13,6 pontos percentuais que ecoou como um terremoto político e financeiro .

O resultado, considerado irreversível, não apenas complica a governabilidade de Milei, mas coloca em xeque sua capacidade de aprovar reformas estruturais cruciais, como as mudanças tributária, trabalhista e previdenciária, essenciais para atrair investimentos estrangeiros e estabilizar a economia .

Imediatamente após a divulgação dos resultados, os mercados reagiram com pânico. O peso argentino despencou, atingindo uma desvalorização histórica frente ao real brasileiro: um real passou a comprar 271 pesos argentinos, uma queda de 39% no acumulado do ano .

Paralelamente, o índice MERVAL da bolsa de Buenos Aires – que havia atingido um recorde histórico em janeiro de 2025 – colapsou para 1,75 milhão de pontos, seu nível mais baixo desde outubro de 2024, com perdas de 20,19% apenas no último mês . Segundo analistas do JP Morgan e do Barclays, a volatilidade tende a se intensificar até as eleições legislativas de outubro, onde Milei enfrentará um teste ainda mais decisivo para controlar o Congresso .

O TRATEAQUI Notícias apurou que a derrota foi amplificada por um cenário de corrupção que manchou a imagem anticorrupção de Milei. Áudios vazados revelaram que Karina Milei, irmã do presidente e secretária-geral da Presidência, supostamente coordenava um esquema de desvio de 8% na compra de medicamentos para pessoas com deficiência – um grupo já severamente afetado pelos cortes de austeridade do governo .

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O escândalo, somado aos vetos presidenciais que reduziram aposentadorias e auxílios sociais, corroeu a base eleitoral de Milei e alimentou a narrativa de que seu ajuste fiscal tem uma “face desumana“, nas palavras do analista Cristian Buttié .

Economicamente, a situação é paradoxal. A inflação mensal caiu para cerca de 2%, mas permanece em patamares criticamente altos para padrões internacionais, enquanto o peso é mantido artificialmente valorizado através de juros de 80% ao ano – uma política que, embora contenha a inflação no curto prazo, estrangula o crescimento e torna a Argentina um dos países mais caros do mundo .

O governo agora enfrenta um dilema: intervir no mercado para defender a moeda, esgotando reservas internacionais já escassas, ou permitir uma desvalorização controlada que pode reacender a inflação . Na última semana, o Tesouro argentino gastou US$ 100 milhões diários para conter a queda do peso, mas suas reservas em caixa caíram para menos de US$ 1,1 bilhão, limitando severamente sua capacidade de intervenção .

O impacto geopolítico também é significativo. A derrota de Milei fortaleceu o governador de Buenos Aires, Axel Kicillof, como principal referência oposicionista para as eleições presidenciais de 2027, reacendendo o temor de investidores sobre um retorno do peronismo ao poder federal .

Como destacou o sociólogo Juan Gabriel Tokatlian, “esta não é ainda a pior hora do governo Milei, mas o início de sua pior hora” . Para o Brasil, a crise argentina representa tanto riscos quanto oportunidades. Enquanto o real se fortalece – valorizando-se 14,08% frente ao dólar em 2025, quarto melhor desempenho global –, a instabilidade no segundo maior mercado da América do Sul pode afetar negócios brasileiros exportadores .

Milei, em resposta à derrota, admitiu “erros políticos” mas jurou não recuar “um milímetro” na agenda econômica . No entanto, segundo apuração da equipe do TRATEAQUI Notícias, seu governo já adotou medidas pragmáticas não divulgadas, como a venda de contratos de dólar overnight pelo Banco Central para absorver liquidez e conter a pressão especulativa . Essas ações, embora aliviem a crise no curto prazo, expõem a contradição entre o discurso ideológico de Milei e a realidade operacional de um Estado à beira do colapso financeiro.

Com as eleições legislativas de 26 de outubro se aproximando, a Argentina entra em uma fase de incerteza prolongada. Analistas do Morgan Stanley e do BTG Pactual já revisaram suas recomendações para ativos argentinos, alertando para um “caminho mais desafiador” à frente .

Para milhões de argentinos, o sonho de prosperidade liberal transformou-se em um pesadelo de recessão, austeridade e agora, instabilidade política. O futuro do projeto de Milei depende não apenas de sua capacidade de recompor alianças, mas de convencer mercados e cidadãos de que seu rumo – mesmo doloroso – é o único viável para evitar o abismo.

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