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Um contraste dramático e constrangedor define a presença brasileira em Nova York durante a Assembleia Geral da ONU. Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva publicava um artigo de opinião no prestigiado The New York Times para criticar as tarifas impostas pelos Estados Unidos e afirmar que a soberania brasileira não é negociável, seu próprio ministro da Saúde, Alexandre Padilha, era submetido a um tratamento humilhante pelo governo de Donald Trump. O TRATEAQUI Notícias apurou que Padilha, integrante da comitiva presidencial, teve seu visto liberado com uma condição inaceitável: sua movimentação na cidade ficou restrita a um raio de apenas cinco quarteirões entre o hotel e a sede da ONU, uma limitação que beira o confinamento para uma autoridade de seu escalão . A cena grotesca de um ministro de Estado brasileiro efectivamente cercado pelas regras impostas pela Casa Branca enquanto seu chefe discursa sobre independência nacional ilustra com crueza a distância entre a retórica desafiadora e a realidade subalterna.

O artigo de Lula no New York Times, intitulado “A democracia e a soberania do Brasil não são negociáveis“, foi uma tentativa de levar a sua mensagem directamente ao público e à elite política americana. No texto, o presidente brasileiro classificou as tarifas de 50% sobre produtos brasileiros como uma medida sem racionalidade económica, com motivações puramente políticas . Lula argumentou que os Estados Unidos mantêm um superávit comercial com o Brasil e que as alegações de práticas comerciais desleais são infundadas. Ele defendeu o sistema de pagamentos Pix, alvo de críticas americanas, afirmando que se trata de um mecanismo que promove a inclusão financeira e não pode ser penalizado por seu sucesso . A publicação do artigo foi um movimento estratégico para contornar a aparente falta de canais de comunicação directos com a administração Trump, após tentativas de diálogo por meio do vice-presidente Geraldo Alckmin e dos ministros das Relações Exteriores e da Fazenda não terem logrado o êxito desejado .

A resposta de Lula, no entanto, foi manchada pelo episódio vergonhoso envolvendo o ministro Padilha. Percebendo a impossibilidade de cumprir sua agenda ministerial sob tais restrições, que ele próprio considerou “inaceitáveis” , Padilha optou por desistir da viagem. A justificativa do governo americano para a medida não foi explicitada publicamente, mas o timing, coincidindo com a tensão crescente entre os dois países, sugere um acto de coerção diplomática calculado. Enquanto isso, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, também ausente da comitiva, decidiu permanecer no Brasil para acompanhar a votação de uma proposta de isenção de Imposto de Renda, priorizando a agenda doméstica . A comitiva presidencial seguiu para Nova York desfalcada de importantes nomes, num símbolo de uma missão já nascida sob o signo da adversidade e do desrespeito.

Este não é o primeiro capítulo deste embate que tem como pano de fundo o julgamento e a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Donald Trump tem repetidamente caracterizado o processo como uma “caça às bruxas“, espelhando a terminologia que usa para descrever suas próprias batalhas judiciais . A imposição das tarifas em Julho foi explicitamente vinculada a este caso, numa interferência directa nos assuntos internos do Brasil que Lula veementemente rejeita. No seu artigo, o presidente brasileiro defendeu a independência do Judiciário, declarando orgulho da decisão histórica do STF que, segundo ele, salvaguardou as instituições democráticas . A insistência de Lula em responder às críticas sobre este tema no palco internacional demonstra a centralidade que a defesa da autonomia judicial assumiu na sua estratégia de confronto com Trump.

A postura de Lula tem sido caracterizada por uma firmeza incomum perante a pressão americana. Em entrevista ao New York Times ainda em Julho, o presidente deixou claro que “seriedade não exige subserviência” e que o Brasil não negociaria como um “país pequeno contra um país grande” . Esta atitude levou o próprio jornal a afirmar que “talvez não haja líder mundial desafiando o presidente Trump com tanta veemência quanto Lula” . No entanto, o incidente com o ministro Padilha coloca uma nuvem de dúvida sobre a eficácia prática desta estratégia. É possível questionar se a bravata na imprensa se traduz em resultados concretos quando um ministro é efectivamente encurralado em solo americano. A contradição entre o discurso de soberania e a realidade de um alto funcionário do Estado com seus movimentos restritos por um governo estrangeiro é demasiado gritante para ser ignorada.

Para além do conflito bilateral, a crise interna no governo Lula agrava-se, acrescentando mais uma camada de complexidade ao cenário. O ministro do Turismo, Celso Sabino, anunciou sua demissão forçada após um ultimato do União Brasil, que determinou a saída de todos os seus filiados dos cargos no governo federal . A saída de Sabino, que desejava permanecer no cargo até a COP30 em Belém, enfraquece a base de apoio do governo e expõe as fissuras políticas que Lula precisa gerir internamente enquanto navega por águas internacionais tão turbulentas. A debandada de um partido chave da base aliada num momento de tensão externa máxima sinaliza instabilidade e fragiliza a posição negociadora do presidente.

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O resultado prático desta crise para os interesses nacionais permanece incerto. As tarifas de 50% representam uma ameaça significativa à economia brasileira, e até o momento não há indícios de que a estratégia de confronto directo de Lula tenha conseguido amenizá-las. A pergunta que fica é se a postura dura, ainda que popular junto ao seu eleitorado, não está a alienar ainda mais a administração Trump e a fechar portas para uma solução negociada. A humilhação imposta ao ministro Padilha serve como um alerta sombrio de que o poder de fogo diplomático e económico dos Estados Unidos pode ser usado de formas muito mais contundentes e pessoais do que simples tarifas comerciais. O governo brasileiro pode estar a descobrir, da pior maneira, que desafiar um parceiro comercial crucial numa arena midiática pode ter consequências operacionais imediatas e constrangedoras.

Em última análise, a imagem que fica é a de um presidente brasileiro a lutar pela sua narrativa nas páginas de um jornal americano, enquanto a sua autoridade é desafiada nas ruas de Nova York através da restrição de um dos seus principais ministros. Este contraste entre a batalha das ideias e a realidade do poder levanta questões profundas sobre os limites da autonomia brasileira num mundo cada vez mais polarizado. A soberania, tão proclamada por Lula no papel, mostrou-se um conceito frágil quando confrontada com a aplicação determinada da política externa americana. O episódio deixa claro que, para além das palavras de efeito em artigos de opinião, a verdadeira medida da independência de uma nação é a capacidade de seus representantes se moverem livremente enquanto defendem seus interesses. E nesse teste fundamental, a diplomacia brasileira, nesta semana, falhou redondamente.

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