Em um movimento que coloca o Brasil no centro de uma disputa geopolítica global, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu em Nova York o diretor-executivo do TikTok, Shou Zi Chew, para uma reunião que sinaliza uma parceria estratégica entre o governo brasileiro e a plataforma chinesa. O encontro, ocorrido na residência oficial da missão brasileira na ONU, contrasta fortemente com a guerra declarada pelos Estados Unidos à empresa-mãe ByteDance, que tem até 5 de abril para vender suas operações americanas ou ser banida do país. Enquanto a administração Trump pressiona por uma venda forçada, Lula acena com a possibilidade de investimentos bilionários no Brasil, criando um eixo de influência distinto no ocidente.
A reunião em Nova York não foi um mero protocolo diplomático. De acordo com informações colhidas pelo TRATEAQUI Notícias, foi confirmado durante o encontro o interesse da ByteDance em aplicar cerca de R$ 50 bilhões na criação de data centers no Ceará, um projeto de infraestrutura crítica que pode transformar o estado em um hub tecnológico para a empresa na América Latina. A presença do ministro da Educação, Camilo Santana, e do governador do Ceará, Elmano de Freitas, não foi casual; indica que a conversa tratou de interesses concretos e de longo prazo, indo muito além das discussões superficiais sobre regulação de redes sociais.
Enquanto Lula recebia Shou Zi Chew de portas abertas, o TikTok enfrenta nos Estados Unidos sua maior ameaça existencial. O presidente Donald Trump, que já tentou banir a plataforma em seu primeiro mandato, agora concedeu um prazo final até 5 de abril para que a ByteDance efetue a venda das operações americanas. A justificativa americana é de segurança nacional: legisladores acreditam que o controle chinês sobre o aplicativo permite que o governo de Pequim acesse dados de mais de 170 milhões de usuários americanos e manipule o algoritmo para fins de propaganda e espionagem. Trump, no entanto, parece agora ambivalente, tendo se declarado a favor da plataforma por entender a necessidade de “concorrência” no mercado.
A posição de Trump representa uma reviravolta curiosa. O mesmo homem que tentou banir o aplicativo agora se coloca como um possível mediador de sua salvação, questionando publicamente a extensão do risco de segurança. “É tão importante assim para a China espionar jovens? Jovens assistindo a vídeos malucos?”. Seu apoio, porém, é condicional e pragmaticamente vinculado à concretização de uma venda que atenda aos interesses americanos. O vice-presidente JD Vance, encarregado de supervisionar as negociações, afirmou que é quase certo que um acordo de alto nível será fechado antes do prazo, criando uma “empresa TikTok americana distinta”.
No front judicial, a batalha do TikTok parece ter encontrado um obstáculo intransponível. A Suprema Corte dos Estados Unidos sinalizou que deve manter a validade da lei que obriga a venda ou o banimento, considerando que a medida não viola a Primeira Emenda da Constituição americana, que garante a liberdade de expressão. A maioria dos juízes parece convencida pelos argumentos de segurança nacional apresentados pelo governo, enfraquecendo a defesa da plataforma, que alegava estar sofrendo uma “restrição maciça e sem precedentes” à liberdade de expressão. Esta decisão judicial praticamente esgota as opções legais da ByteDance e a coloca contra a parede.
O interesse do governo Lula no TikTok vai além de promessas de investimento. Durante a reunião, a empresa demonstrou alinhamento com a recente agenda de regulação brasileira, incluindo o PL da Adultização, sancionado por Lula para proteger crianças e adolescentes na internet. O TikTok afirmou estar comprometido com a pauta de proteção de menores e defendeu que outros agentes do setor sigam o mesmo caminho, posicionando-se como um parceiro responsável perante o governo brasileiro. Este diálogo construtivo sobre regulação forma um contraste gritante com o embate judicial e político que a empresa enfrenta na América do Norte.
Vários grupos de investidores já se posicionaram como potenciais compradores do TikTok nos EUA, transformando a operação em um dos leilões mais disputados do cenário tecnológico global. Entre os interessados estão um consórcio liderado pelo bilionário ex-proprietário do Los Angeles Dodgers, Frank McCourt, e o investidor da TV Shark Tank, Kevin O’Leary. Outro grupo inclui o influenciador digital MrBeast e o fundador da Employer.com, Jesse Tinsley. A empresa de inteligência artificial Perplexity e a Oracle, atual parceira tecnológica do TikTok nos EUA, também são citadas como fortes concorrentes. Trump chegou a sugerir a criação de um fundo soberano americano para adquirir a plataforma.
A postura adotada pelo governo Lula nesta disputa é sintomática de uma estratégia de política externa mais ampla, que busca diversificar parcerias e afirmar uma posição de autonomia estratégica frente às potências tradicionais. Ao engajar-se diretamente com uma empresa chinesa sob cerco americano, o Brasil envia uma mensagem clara sobre sua disposição de negociar com todos os lados, baseando-se em seus próprios interesses nacionais, que incluem a atração de investimentos e o desenvolvimento tecnológico. Esta abordagem, porém, não está isenta de riscos e pode ser interpretada em Washington como um alinhamento indireto com Pequim.
Para o Brasil, a eventual concretização dos investimentos da ByteDance no Ceará representa uma oportunidade única de impulsionar sua economia digital e criar empregos de alta tecnologia. No entanto, o país também pode herdar as complexidades e suspeitas que cercam a empresa. O TRATEAQUI Notícias apurou que especialistas em segurança cibernética alertam para a necessidade de um marco regulatório robusto que garanta a soberania dos dados brasileiros, assegurando que informações sensíveis de cidadãos e empresas nacionais permaneçam protegidas, independentemente das pressões geopolíticas exercidas sobre a matriz chinesa.
O desfecho do impasse nos Estados Unidos terá repercussões diretas no Brasil e no mundo. Se a venda for concretizada, surgirá uma TikTok com duas almas: uma americana, sob rígido escrutínio de segurança, e outra global, ainda controlada pela ByteDance. Se as negociações fracassarem e o banimento se efetivar, abrir-se-á um enorme vácuo no mercado de mídia social, que será disputado por concorrentes, ao mesmo tempo que acenderá um alerta vermelho para outros países que mantêm relações comerciais com a China. A postura do Brasil, nesse cenário, pode servir de modelo ou de advertência para outras nações em desenvolvimento.
O encontro entre Lula e Shou Zi Chew foi muito mais do que uma foto oportunista; foi a materialização de uma escolha geopolítica de consequências profundas. Enquanto os Estados Unidos optam pela via da coerção e do confronto direto com a China, o Brasil aposta na diplomacia e no pragmatismo econômico. Esta divergência de caminhos coloca o TikTok como o grande pomo da discórdia tecnológica deste século, um símbolo da guerra fria digital onde dados são o novo petróleo e algoritmos são as novas armas. O futuro da plataforma no ocidente dependerá não apenas das decisões em Washington, mas também da capacidade de Brasília de navegar neste tabuleiro global complexo sem abrir mão de seus interesses estratégicos.














