Ontem, o mercado financeiro brasileiro testemunhou um dos episódios mais contundentes de desconfiança investidora contra um grande conglomerado. A Cosan (CSAN3) foi severamente castigada em pregão único, com suas ações despencando mais de 18% e chegando a tocar a marca dos 20% de queda, em uma reação brutal ao anúncio de um acordo para captar até R$ 10 bilhões com BTG Pactual e Perfin. O que foi planejado como uma operação estratégica de capitalização foi interpretado pelos investidores como um sinal de desespero, transformando um dia que deveria ser de celebração em um verdadeiro pesadelo para os acionistas e para a holding de Rubens Ometto.
O anúncio formalizado ontem pelo conglomerado detalha uma operação em duas fases. A primeira etapa, já garantida, envolve a injeção de R$ 7,25 bilhões por meio da emissão de 1,45 bilhão de novas ações ao preço unitário de R$ 5, adquiridas por um consórcio que inclui BTG Pactual, Perfin Infra e a holding da família Ometto. Uma segunda oferta, de até R$ 2,75 bilhões (550 milhões de ações), será aberta aos acionistas atuais, totalizando a captação potencial de R$ 10 bilhões. O grande ponto de tensão, entretanto, foi o preço de emissão de R$ 5 por ação, que representou um deságio de aproximadamente 33% em relação ao fechamento do dia anterior, fixado em R$ 7,50.
A explicação imediata para a hemorragia de valor observada ontem na Bolsa de Valores de São Paulo reside no efeito diluição massivo. Com a criação de até 2 bilhões de novas ações, os acionistas atuais, que detinham 1,87 bilhão de papéis, verão sua participação no capital social da empresa reduzida em 48,4%. Essa diluição significa que cada ação existente passará a representar uma fatia significativamente menor da companhia e de seus fluxos de caixa futuros, um custo considerado inaceitável por muitos fundos de investimento que liquidaram posições às pressas.
O destino dos recursos, conforme explicado ontem pelo CEO da Cosan, Marcelo Martins, e pelo CFO, Rodrigo Araújo, será exclusivo para o pagamento e renegociação de dívidas da holding mãe. A empresa encerrou o segundo trimestre de 2025 com uma dívida líquida de R$ 17,5 bilhões e uma relação dívida líquida/EBITDA de 3,4 vezes – um patamar considerado crítico pelos analistas. A operação de ontem tem o objetivo declarado de reduzir o endividamento corporativo em 57%, aliviando a pressão das despesas financeiras em um cenário de juros ainda elevados.
Apesar do trauma imediato, analistas de instituições como o Bradesco BBI já sinalizavam ontem, em relatórios expedidos após o anúncio, que enxergam benefícios de longo prazo. A transação deve elevar a relação de cobertura de juros líquidos de 1,0 vez (projetada para 2026) para 2,3 vezes, proporcionando um fôlego financeiro crucial. A entrada de investidores qualificados com lock-up de quatro anos para os âncoras é vista como um voto de confiança na governança. O TRATEAQUI Notícias apurou que, nos bastidores, a operação é encarada como um passo importante para endereçar a questão da sucessão no grupo.
A reação do mercado ontem, portanto, pode ser interpretada como um choque entre o curto prazo e o longo prazo. No imediatismo das corretoras, prevaleceu a dor da diluição e o sinal de que a empresa precisou recorrer a uma medida extrema para sanar seus problemas de caixa. No horizonte mais distante, a operação pode representar um recomeço, permitindo que a Cosan evite a venda de ativos em condições desfavoráveis. O Bradesco BBI, mesmo reduzindo seu preço-alvo para as ações de R$ 9 para R$ 8, manteve sua recomendação de compra, estimando uma redução imediata de cerca de R$ 1,5 bilhão em despesas financeiras.
O acordo estabelece uma nova holding que reunirá os novos investidores e a família controladora, com um acordo de acionistas para alinhar a governança. Com a primeira etapa da oferta, esse novo veículo deterá 43% da Cosan, podendo chegar a 51,6% caso adquira toda a segunda leva de ações. Essa estrutura, ainda que pouco usual, visa assegurar uma estratégia de longo prazo. Rubens Ometto mantém o controle majoritário por meio de suas holdings pessoais, com 50,01% das ações ordinárias e a presidência do conselho.
A operação de ontem ocorre em um momento desafiador para os negócios da Cosan. A Raízen, sua principal controlada, enfrenta margens pressionadas no setor de açúcar etanol e desafios na distribuição de combustíveis. O conglomerado ainda carrega o ônus financeiro da aquisição de participação na Vale em 2022. A capitalização emergencial é, assim, um reconhecimento tácito de que a situação exigia uma ação drástica para evitar um estrangulamento financeiro mais severo.
Para o investidor minoritário, a lição de ontem é dura: mesmo a chegada de gigantes como o BTG Pactual, que aportará R$ 4,5 bilhões, e a Perfin, com R$ 2 bilhões, não foi suficiente para conter o pânico. A confiança dos grandes players sinaliza uma aposta na viabilidade futura da empresa, mas o custo imediato foi pago por aqueles que já estavam na roda. A queda histórica da Cosan serve como um alerta contundente sobre os riscos da alavancagem excessiva.
O desfecho desta crise começará a ser desenhado a partir de hoje, dependendo da capacidade da nova estrutura societária em executar o plano de desalavancagem. A credibilidade de Rubens Ometto e de seus novos parceiros está em jogo. Se, por um lado, o mercado puniu a forma como o socorro foi conduzido, por outro, abre-se uma janela de oportunidade. O mega-investimento de R$ 10 bilhões anunciado ontem não é o fim, mas o início de uma complexa reconstrução que será vigiada de perto por todo o mercado financeiro.














