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Em um movimento que redefine o cenário da aviação comercial na América do Sul, a Latam Airlines Group anunciou nesta segunda-feira, 22 de setembro, uma encomenda massiva de até 74 aeronaves E195-E2 da Embraer, em um acordo que mistura audácia estratégica com sinais de uma profunda insatisfação com os fornecedores tradicionais. O pedido firme de 24 jatos, avaliado em US$ 2,1 bilhões a preço de catálogo, acompanhado de 50 opções de compra, fez as ações da fabricante brasileira (EMBR3) decolarem 4,6% no pregão, em uma clara celebração do mercado. No entanto, a decisão da maior companhia aérea do subcontinente de, pela primeira vez, introduzir aviões Embraer em uma frota historicamente dominada por Boeing e Airbus levanta uma questão crucial: esta é uma simples expansão ou uma ruptura calculada no modelo de negócios da aviação regional?

A reação imediata do mercado financeiro foi de forte otimismo. As ações da Embraer encerraram o dia em alta de 4,63%, cotadas a R$ 80,30, liderando os ganhos do Ibovespa em um dia otherwise negativo para o índice. Analistas do JPMorgan foram rápidos em qualificar o anúncio como extremamente positivo, projetando que o backlog (carteira de pedidos) comercial da empresa saltará para aproximadamente US$ 19,5 bilhões, o que representa mais de cinco anos de entregas mesmo considerando uma aceleração na produção. O banco manteve sua recomendação overweight (equivalente a compra) para a Embraer, com um preço-alvo ambicioso de R$ 107, sinalizando uma crença robusta no potencial de valorização futura.

O acordo, no entanto, vai muito além de números em um balanço. Representa a estreia histórica dos jatos E2 da Embraer na frota da Latam, que até então era composta exclusivamente por 286 aeronaves Airbus e 56 Boeing. As entregas estão programadas para ter início no segundo semestre de 2026, sendo a subsidiária brasileira da Latam a primeira a operar os novos aviões, com a possibilidade de posterior expansão para outras afiliadas do grupo no Chile, Colômbia, Equador e Peru. Segundo apuração da equipe do TRATEAQUI Notícias, a escolha pelo E195-E2 não foi casual; a aeronave oferece uma eficiência operacional que a Airbus e a Boeing, atoladas em crises de produção e atrasos nas entregas de seus modelos, não conseguiram oferecer com a mesma agilidade.

A estratégia por trás da aquisição foi explicitada pelo CEO do Latam Airlines Group, Roberto Alvo. Ele afirmou que a decisão se baseia na “excelente eficiência e versatilidade” do E195-E2, que permitirá ao grupo continuar seu caminho de crescimento rentável. A Latam estima que a nova frota permitirá adicionar até 35 novos destinos aos 160 já atendidos na América do Sul, conectando cidades menores e rotas menos densas que não são economicamente viáveis para os jatos de corredor único maiores. Trata-se de uma jogada para dominar a aviação regional, um mercado até então subexplorado.

Do ponto de vista técnico, o E195-E2 é a joia da coroa da Embraer. Sendo o maior e mais eficiente modelo da família E-Jets E2, a aeronave consome até 30% menos combustível por assento em comparação com a geração anterior, uma economia monumental em um setor onde o querosene é um dos maiores custos. Com capacidade para até 146 passageiros em uma configuração de cabine 2×2 – que elimina os incômodos assentos do meio –, o jato oferece um conforto superior para voos de curta e média distância, como os que conectam São Paulo a Lima ou outras capitais sul-americanas.

O anúncio ocorre em um momento particularmente oportuno para a Embraer. Apenas algumas semanas após fechar a venda de 50 jatos E195-E2 para a norte-americana Avelo Airlines, a fabricante brasileira demonstra uma capacidade impressionante de conquistar clientes de peso em um mercado global disputadíssimo. O Bradesco BBI destacou que o book-to-bill da empresa (razão entre novos pedidos e entregas) para 2025 atingiu a marca robusta de 2,4 vezes, indicando que está vendendo muito mais do que produz, um sinal claro de saúde financeira e demanda aquecida.

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Para o governo brasileiro, a notícia foi recebida como uma vitória nacional. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva comemorou em suas redes sociais, afirmando que a venda consolida a Embraer “como uma das maiores fabricantes de aeronaves do mundo e fortalece nossa indústria e nosso setor aéreo”. Já o ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, projetou que os investimentos gerados pelo acordo irão criar mais de 2 mil empregos diretos, alavancando a cadeia produtiva nacional.

No entanto, especialistas consultados indiretamente pelas análises do TRATEAQUI Notícias alertam para os desafios inerentes a esta nova parceria. A introdução de uma nova fabricante na frota da Latam introduz complexidades operacionais, como a necessidade de treinamento específico para tripulações e equipes de manutenção, e a criação de uma nova cadeia de suprimentos de peças. O sucesso da integração dependerá da capacidade da Embraer em oferecer um suporte técnico tão eficiente quanto o de suas concorrentes globais.

Este acordo com a Latam é mais do que uma simples venda; é uma declaração de maturidade e competitividade global da Embraer. Em um cenário onde as gigantes Boeing e Airbus lutam para cumprir prazos, a fabricante brasileira se posiciona como uma alternativa ágil, confiável e tecnologicamente avançada. O E195-E2 não é mais apenas uma opção para companhias aéreas regionais; tornou-se um produto estratégico para grandes grupos, capaz de reconfigurar malhas aéreas e ampliar fronteiras de rentabilidade. O vôo da Embraer, impulsionado por esta encomenda histórica, atinge nova altitude, mas o céu pela frente ainda exige navegação precisa para consolidar este marco em um legado duradouro de sucesso.

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