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O futuro da mobilidade aérea urbana no Brasil sofreu um revés significativo com o anúncio do novo presidente da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), Tiago Faierstein. Em declaração à Reuters, Faierstein estabeleceu 2027 como o ano realista para a certificação do eVTOL (veículo elétrico de decolagem e pouso vertical) da Embraer, conhecido popularmente como “carro voador” . Este prazo representa um adiamento de pelo menos um ano em relação à expectativa inicial da empresa, que alimentou o mercado com a promessa de operações comerciais starting em 2026 . A declaração oficial, feita durante a Feira de Inovação da Organização da Aviação Civil Internacional em Montreal, expõe as dificuldades regulatórias e técnicas que cercam um projeto ambicioso e que já acumula cerca de 3.000 pedidos potenciais de 28 clientes em nove países .

A Eve Air Mobility, subsidiária da Embraer responsável pelo desenvolvimento da aeronave, agora alinha seus cronogramas à previsão mais cautelosa da ANAC. No entanto, Faierstein deixou claro que a agência tem um “desejo” interno de antecipar a certificação para 2026, condicionando esse feito à maturidade tecnológica que a própria Embraer precisará demonstrar . O presidente da ANAC foi enfático ao afirmar que a certificação do eVTOL é a “principal prioridade” do órgão regulador, mas transferiu a responsabilidade pelo cumprimento dos prazos para a fabricante, ressaltando que “sua tecnologia precisa estar madura” para ser certificada . Essa fala sinaliza que, nos bastidores, podem existir questionamentos sobre o estágio atual de desenvolvimento do projeto.

O desafio vai muito além de aprovar a aeronave. Faierstein destacou que a entrada em serviço do eVTOL depende criticamente do desenvolvimento de uma infraestrutura terrestre adequada, incluindo a construção de “vertiportos” (aeroportos verticais para decolagem e pouso), adaptações na rede elétrica para suportar a carga e sistemas avançados de gerenciamento de tráfego aéreo . A ANAC, portanto, afirma estar focada na “implantação no mercado, não apenas na certificação” . Esta visão ampla é crucial, pois de nada adianta uma aeronave certificada se o ecossistema para operá-la com segurança e eficiência não existir, um risco real que pode postergar ainda mais a materialização do projeto.

Do lado da Embraer, a posição pública é de tranquilidade e controle. O presidente-executivo da companhia, Francisco Gomes Neto, já havia declarado no mês anterior que mantinha contato com a ANAC e que tudo estava “bem controlado” antes da certificação . Ele reafirmou o final de 2027 como o plano vigente, com a equipe totalmente empenhada nesse cronograma . Essa aparente sincronia entre regulador e fabricante mascara a pressão sobre a Embraer, que tem no eVTOL uma peça-chave para seu crescimento futuro como terceira maior fabricante de aviões do mundo .

O TRATEAQUI Notícias apurou que o projeto já captou vultosos recursos financeiros, incluindo um investimento de R$ 90 milhões da Finep, agência de fomento vinculada ao governo federal, anunciado em junho de 2025 . Este valor, que exige uma contrapartida financeira da Embraer, elevando o investimento total para R$ 191 milhões, é destinado a pesquisas para uma aviação mais sustentável, abrangendo sistemas autônomos e armazenamento de energia . Anteriormente, o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) já havia injetado R$ 405,3 milhões na Eve, consolidando um expressivo apoio estatal à iniciativa .

Tecnologicamente, o eVTOL da Eve, denominado EVE-100, é uma aeronave elétrica projetada para transportar até quatro passageiros e um piloto, com um alcance máximo de 100 quilômetros . Seu diferencial é a proposta de reduzir drasticamente o tempo de viagens urbanas, transformando trajetos de uma hora em voos de aproximadamente 15 minutos . Com custo operacional e nível de ruído inferiores aos de um helicóptero tradicional, além de zero emissão de CO2, o veículo é apresentado como uma solução sustentável para o congestionamento nas grandes cidades . Cada unidade tem um preço estimado em US$ 5 milhões .

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Um dos maiores obstáculos imediatos é a criação de um marco regulatório internacional. A ANAC planeja primeiro coletar dados no Brasil durante a fase de testes e desenvolvimento para, em seguida, compartilhá-los com a Organização da Aviação Civil Internacional (OACI) e outros países, visando a harmonização das regulamentações . Este passo é fundamental para que os eVTOLs possam, no futuro, cruzar fronteiras e operar em diferentes países sob regras comuns. A Eve já submeteu seu projeto à consulta pública da ANAC para a definição de critérios de aeronavegabilidade, um marco regulatório significativo concluído em 2024 .

O cronograma de desenvolvimento da Eve prevê a realização do primeiro voo de um protótipo ainda em 2025, seguido por mais testes em 2026 com unidades que se assemelharão ao produto final . A produção está planejada para ocorrer em Taubaté (SP), onde a empresa espera fabricar até 480 unidades por ano em capacidade máxima, gerando cerca de mil empregos . O modelo de negócios não prevê a venda direta a indivíduos, mas sim a operadoras de táxi aéreo e companhias aéreas, com voos comerciais de curta duração .

Apesar do otimismo, especialistas ouvidos indiretamente pelas análises do TRATEAQUI Notícias alertam para os riscos. O adiamento da certificação pode abrir espaço para concorrentes globais, como as empresas Airbus e Ehang, que também desenvolvem suas próprias aeronaves elétricas . Além disso, o sucesso comercial do eVTOL dependerá da aceitação do mercado e da capacidade de oferecer preços verdadeiramente acessíveis, uma promessa que ainda precisa ser comprovada na prática .

O anúncio da ANAC serve como um banho de realidade em um setor movido a grande expectativa. A corrida pelo “carro voador” não é uma questão de “se”, mas de “quando”. O Brasil, através da Embraer, posiciona-se na vanguarda desta disrupção, com investimentos pesados e apoio governamental. No entanto, o caminho até os céus das cidades é mais longo e complexo do que se imaginava. A janela de 2027 agora aparece como o novo marco realista, mas a jornada até lá testará a resiliência da tecnologia, a eficiência da regulação e a paciência de um mercado ansioso por inovação. A Eve e a ANAC têm pela frente dois anos decisivos para transformar um sonho de ficção científica em uma realidade segura e comercialmente viável.

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