O presidente Luiz Inácio Lula da Silva subiu ao pódio da Assembleia Geral das Nações Unidas nesta terça-feira, 23 de setembro, para um discurso que tentou reposicionar o Brasil como uma potência moral global. No centro de sua fala, uma defesa incisiva do multilateralismo e uma crítica feroz às estruturas de poder que, segundo ele, estão defasadas e são injustas. A autoridade da ONU, afirmou Lula, está em xeque, e a reforma do Conselho de Segurança é uma necessidade urgente, incluindo o fim do poder de veto de nações como Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido. “A fotografia do mundo hoje não é mais a de 1945“, declarou o presidente, defendendo que a organização precisa ser completamente reformulada para refletir o mundo contemporâneo.
No entanto, a defesa de um mundo multipolar foi imediatamente posta à prova pelos eventos nos bastidores. Horas após desafiar a ordem internacional liderada pelos EUA em seu discurso, Lula se envolveu em um encontro surpreendente com o próprio arquétipo do unilateralismo que criticava: o presidente americano, Donald Trump. Nos corredores da ONU, os dois líderes se cruzaram e, segundo Trump, compartilharam um abraço e cerca de 40 segundos de uma “química excelente”. O presidente dos EUA, que minutos depois usaria seu discurso para advertir que o Brasil “só se sairá bem quando cooperar conosco”, anunciou que os dois marcarão uma reunião para a próxima semana.
Essa aparente contradição entre o discurso confrontativo e a abertura diplomática instantânea define o delicado equilíbrio que o governo Lula tenta alcançar. Ao tratar com Trump, Lula adotou um tom conciliatório. Em coletiva de imprensa na quarta-feira, afirmou que trataria o líder americano “com o respeito que merece” e demonstrou otimismo com o diálogo, acreditando que uma conversa direta pode resolver o “mal-estar” atual, impulsionado por tarifas comerciais impostas por Trump e suas críticas ao judiciário brasileiro. “Acho que ele está mal informado em relação ao Brasil”, disse Lula, sugerindo que o encontro pode fazer Trump repensar medidas adversas.
A guerra na Ucrânia foi outro pilar central da atuação de Lula em Nova York. O presidente brasileiro manteve sua defesa de uma solução pacífica e negociada para o conflito. Nesta quarta-feira, reuniu-se com o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, e posteriormente detalhou à imprensa que propôs a criação de um “grupo de amigos” para mediar as negociações. Lula disse ter sentido Zelensky “com muito mais vontade de conversar” e revelou que pretende usar sua influência, inclusive junto a Trump – que considera “amigo do Putin” – para avançar numa saída diplomática. “Quem sabe nossa química pode ser levada para o Putin e para Zelensky”, ponderou.
A postura de Lula, no entanto, é um exercício de alto risco geopolítico. Sua crítica ao “genocídio em curso em Gaza” e aos ataques norte-americanos a embarcações próximas à Venezuela, que classificou como “execuções extrajudiciais”, colocam-no em rota de colisão direta com potências ocidentais e seus aliados. Ao mesmo tempo, sua defesa intransigente da soberania nacional foi marcada pela menção ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro. “Brasil enviou um mensagem a los autócratas en ciernes y a quienes los apoyan: nuestra democracia, nuestra soberanía no se regatea”, afirmou, em uma clara resposta às pressões externas sobre o caso.
A imprensa internacional percebeu o tom de desafio. O jornal The Guardian destacou que Lula afirmou que a democracia pode prevalecer sobre “pretensos autocratas”, uma indireta quase explícita a Trump. Já o Washington Post enquadrou o momento como um embate entre o “presidente de esquerda do Brasil” e o “populismo de direita” do líder americano, notando que Lula se posicionou como um contrapeso à sua agenda. O El País ressaltou que Lula “está entre os poucos líderes que não se curvaram às medidas unilaterais” de Trump.
O grande questionamento que fica é sobre a efetividade prática dessa estratégia. A defesa de Lula por uma reforma da ONU, embora moralmente sólida para muitos, esbarra na fria realidade do poder geopolitico atual, onde os detentores do veto dificilmente abrirão mão de seu privilégio. Da mesma forma, a aproximação com Trump, ainda que pragmaticamente necessária para destravar relações comerciais, pode ser interpretada como uma flexibilização dos princípios multilaterais que o presidente diz defender. O TRATEAQUI Notícias apurou que, dentro do Itamaraty, há um entendimento de que o Brasil deve evitar se tornar um ator marginalizado em um mundo cada vez mais polarizado, buscando espaços de diálogo sem abrir mão de suas posições.
O desfecho dessa diplomacia de contrastes ainda é incerto. Se, por um lado, Lula conseguiu projetar o Brasil de volta ao cenário internacional como uma voz ativa e crítica, por outro, colocou o país em um campo minado de tensões entre grandes potências. A capacidade de negociar com todos – de Zelensky a Trump, de Putin aos europeus – será seu maior trunfo e, potencialmente, sua maior armadilha. A verdadeira prova de fogo será se a “química” com Trump se traduzirá em resultados concretos que beneficiem o Brasil, ou se será apenas um momento passageiro em um jogo de interesses muito mais complexo e perigoso. A comunidade internacional observa com atenção para ver se o Brasil de Lula conseguirá, de fato, ser a ponte que diz ser, ou se acabará ficando no meio do caminho.














