Um temporal de força inusitada pode ter causado um dos maiores prejuízos industriais recentes no Brasil. A fábrica de motores da Toyota em Porto Feliz, no interior de São Paulo, sofreu danos classificados por dirigentes sindicais como “perda total” após ser atingida por fortes chuvas e ventos de até 90 km/h na última segunda-feira (22). A consequência imediata foi o adiamento, pelo terceiro vez em 2025, do lançamento do SUV Yaris Cross, mas o impacto real é muito mais profundo: a Toyota pode ficar sem produzir veículos no Brasil até o final deste ano ou mesmo o início de 2026. A paralisação afeta as linhas de montagem de Sorocaba e Indaiatuba, que dependem dos propulsores de Porto Feliz, colocando em xeque o abastecimento do mercado interno e as exportações milionárias da marca.
O evento climático foi tão severo que destelhou a unidade industrial, causou o capotamento de carros no pátio e alagou áreas internas, danificando maquinários críticos. A Defesa Civil local confirmou a força dos ventos, e vídeos feitos por funcionários, que precisaram se refugiar dentro de máquinas, mostram uma cena de destruição generalizada. Cerca de 30 pessoas sofreram ferimentos leves, sem relatos de vítimas fatais, sendo que a maioria já recebeu alta médica. A Toyota, que priorizou o atendimento aos colaboradores, emitiu um comunicado afirmando que a produção foi interrompida “sem previsão de retomada” enquanto um relatório detalhado de danos é preparado.
A extensão dos estragos é tamanha que a reconstrução será equivalente a erguer uma nova fábrica. De acordo com o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba, Leandro Soares, “vai ter que tirar o esqueleto que ficou e colocar um esqueleto novo”, referindo-se às vigas e colunas de sustentação comprometidas. Esta não é uma unidade qualquer; inaugurada em 2016 após um investimento inicial de R$ 580 milhões (com aportes posteriores elevando o total para cerca de R$ 1,18 bilhão), a planta de Porto Feliz é considerada uma das mais modernas da Toyota no mundo e a primeira da marca dedicada à produção de motores na América Latina. Sua capacidade é de mais de 174 mil motores por ano, abastecendo modelos fundamentais como Corolla, Corolla Cross e o futuro Yaris Cross.
O sistema de produção “just in time” (kanban), do qual a Toyota é referência global, tornou-se sua maior vulnerabilidade neste momento. Esse modelo, baseado na economia de recursos e na produção sincronizada, evita a formação de grandes estoques de componentes. No entanto, significa que a interrupção no fornecimento de um único item essencial, como um motor, paralisa toda a cadeia de montagem. Com a fábrica de Porto Feliz inoperante, as unidades de Sorocaba (onde são produzidos Corolla, Yaris para exportação e onde seria fabricado o Yaris Cross) e Indaiatuba (que também monta o Corolla) tiveram suas atividades interrompidas. Não há motores em estoque para manter a produção, o que amplifica exponencialmente o impacto do desastre.
O adiamento do Yaris Cross, principal aposta da marca para 2025, é apenas a ponta do iceberg dos prejuízos estratégicos. O utilitário compacto, que já havia sido remarcado para outubro, terá seu lançamento reprogramado pela terceira vez, sem nova data definida. O TRATEAQUI Notícias apurou que este atraso coloca a Toyota em uma desvantagem competitiva significativa frente à concorrente Honda, que planeja lançar seu novo WR-V ainda em novembro. O Yaris Cross possuía uma trunfo importante: desde sua estreia, teria versões com a cobiçada motorização híbrida flex, um diferencial em um mercado cada vez mais sensível à eficiência energética.
Os efeitos da paralisação se estendem para além das fronteiras da empresa, atingindo em cheio a balança comercial brasileira. A fábrica de Sorocaba sozinha foi responsável por 23,1% do valor total de veículos exportados pelo Brasil entre janeiro e agosto de 2025, um montante de US$ 935,4 milhões. Somando-se a planta de Indaiatuba, essa participação salta para cerca de 28% do total exportado pelo país, ultrapassando a marca de US$ 1,1 bilhão. O principal destino é a Argentina, que vive um processo de recuperação econômica e absorveu US$ 645,9 milhões em veículos da Toyota apenas neste período. Uma interrupção prolongada nas exportações prejudica não apenas a montadora, mas um fluxo de divisas vital para o país.
Para os aproximadamente 4.600 trabalhadores diretos envolvidos (3.800 em Sorocaba e 800 em Porto Feliz), a situação é de incerteza, mas com medidas de proteção imediatas. Os colaboradores de Sorocaba entraram em férias coletivas, enquanto os de Porto Feliz utilizaram banco de horas antes de também iniciarem o recesso. O sindicato garante que os empregos estão mantidos e que os acordos salariais recentes serão honrados, com negociações em andamento para eventualmente adotar programas de suspensão de contratos (layoff) e evitar demissões. A capacidade da Toyota em gerir essa crise social será um teste crucial para sua reputação como empregadora.
Este incidente coloca em evidência a vulnerabilidade da complexa cadeia automotiva global a eventos climáticos extremos. A dependência de um modelo de produção ultraeficiente, porém com mínima margem para imprevistos, mostrou-se um calcanhar de Aquiles. Enquanto a indústria automobilística brasileira já enfrentava seus próprios desafios, como a alta dos juros, o aumento da inadimplência e os efeitos indiretos do “tarifaço” norte-americano, a Toyota agora precisa lidar com uma crise operacional sem precedentes em sua história no país.
O cenário de recuperação é incerto e necessariamente lento. A reconstrução de uma infraestrutura industrial dessa complexidade não se mede em semanas. A expectativa mais pessimista, citada pela liderança sindical, é de que a produção só retome seu curso normal em 2026. Enquanto isso, o mercado brasileiro de veículos novos terá de se adaptar à escassez de modelos Toyota, especialmente do best-seller Corolla e do aguardado Yaris Cross. Concessionárias podem enfrentar desabastecimento, e consumidores interessados na marca terão de buscar alternativas ou aguardar.
Em última análise, a tragédia em Porto Feliz vai além de um prejuízo contábil para a Toyota. Ela serve como um alerta severo sobre a resiliência da indústria nacional em uma era de mudanças climáticas. A dependência de uma única fonte crítica de componentes, ainda que por uma questão de eficiência, mostrou-se um risco estratégico subestimado. A capacidade de superação da montadora japonesa será acompanhada de perto não apenas por acionistas, mas por todo o setor produtivo, que busca aprender com essa crise para construir cadeias de suprimentos mais robustas e preparadas para os imprevistos de um mundo cada vez mais imprevisível.














