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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, transformou o pódio sagrado da Assembleia Geral da ONU em um ringue político pessoal nesta terça-feira, 23 de setembro, num espetáculo de 56 minutos que mais se assemelhou a um comício de campanha do que a um discurso de Estado. Diante de líderes mundiais que o assistiram em silêncio, Trump disparou críticas furiosas contra a própria organização que o hospedava, classificou as mudanças climáticas como uma “farsa” e alertou nações aliadas de que seus “países estão indo para o inferno” devido a políticas de imigração que considera suicidas . O evento, marcado por falhas técnicas inusitadas – incluindo uma escada rolante que travou com o presidente e a primeira-dama Melania – foi utilizado por Trump como uma metáfora da ineficiência das Nações Unidas, em uma performance que misturou queixas pessoais com uma defesa agressiva de sua visão nacionalista de mundo .

A crítica à estrutura multilateral global foi o cerne do discurso. Trump questionou repetidamente o propósito da ONU, afirmando que a organização tem um “potencial tremendo” mas não consegue cumpri-lo, limitando-se a escrever “cartas de protesto” com “palavras vazias” que não resolvem guerras . Ele contrastou a inação da instituição com seus próprios feitos, declarando ter **”encerrado sete guerras”** em sete meses, um feito que, segundo ele, jamais foi reconhecido com um telefonema de oferecimento de ajuda da burocracia internacional . Esta narrativa de auto-promoção foi constantemente entremeada com ataques a políticas globalistas, refletindo a crença trumpista de que crises globais são melhor resolvidas por líderes fortes em negociações diretas, e não por fóruns multilaterais .

O tema da imigração descontrolada foi um dos pilares de sua fala, recebendo uma atenção quase equivalente à dedicada às guerras internacionais. Trump acusou diretamente a ONU de “financiar um ataque aos países ocidentais e suas fronteiras”, referindo-se aos programas de assistência humanitaria a refugiados . Ele defendeu sua política de “tolerância zero” na fronteira sul dos EUA como um modelo a ser seguido, alegando que após deter e deportar todos os que cruzavam ilegalmente, as entradas simplesmente cessaram . Seu conselho aos líderes europeus foi direto e sem rodeios: “Se você não impedir pessoas que você nunca viu antes, com as quais não tem nada em comum, seu país vai fracassar. Vocês o fazem por quererem ser politicamente corretos, e estão destruindo seu próprio patrimônio” .

A ciência do clima foi outro alvo preferencial. Trump denominou o aquecimento global de “a maior farsa já imposta ao mundo”, celebrou a saída dos EUA do Acordo de Paris e fez alegações falsas sobre a China e a energia eólica . Ele afirmou que os ambientalistas “querem matar todas as vacas” e que as políticas verdes têm como efeito principal redistribuir a atividade industrial para países poluidores, que estariam “fazendo uma fortuna” . Esta postura coloca-o em rota de colisão não apenas com a União Europeia, mas com um consenso científico global, ignorando alertas recentes da própria ONU sobre a elevação catastrófica do nível do mar .

Sobre os conflitos armados em curso, o discurso foi notável pelo que omitiu ou minimizou. Em relação à Ucrânia, Trump afirmou que a situação foi mais difícil de resolver do que esperava, apesar de seu bom relacionamento com o presidente russo, Vladimir Putin. No entanto, direcionou sua crítica principal não a Moscou, mas aos aliados europeus, que acusou de financiar a guerra ao comprar energia da Rússia . Ele ameaçou impor uma “rodada muito forte de tarifas” contra a Rússia, mas condicionou a eficácia à adoção das mesmas medidas pela Europa . Foi apenas após o discurso, em um encontro com o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky e em uma publicação nas redes sociais, que Trump sugeriu pela primeira vez que a Ucrânia poderia estar em condições de “recuperar todo o seu território na forma original” com o apoio europeu, uma mudança significativa em relação à sua anterior abertura para concessões territoriais .

Na questão do conflito em Gaza, a posição de Trump foi de total alinhamento com Israel. Ele criticou veementemente os países que recentemente reconheceram um Estado palestino, argumentando que isso seria “recompensar o Hamas por suas atrocidades horríveis” . Sua solução foi unir esforços para exigir a liberação imediata dos reféns, sem pressionar publicamente por um cessar-fogo imediato ou criticar a ofensiva militar israelense . Esta postura reforça o isolamento dos EUA e de Israel no cenário internacional, onde há um movimento crescente pela criação de um Estado palestino como parte de uma solução de dois Estados .

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O estilo desregrado e as queixas pessoais dominaram o tom do evento. Trump reclamou publicamente do teleprompter que falhou no início, da escada rolante quebrada e até de uma proposta de reforma da sede da ONU que ele teria feito décadas atrás como empresário, mas que não foi aceita . No dia seguinte, ele foi além, acusando a ONU de “sabotagem tripla” e exigindo uma investigação, alegando que o áudio de seu discurso também não estava funcionando corretamente no salão principal . Essas explosões mostram um líder mais preocupado em settled contas pessoais e em cultivar sua imagem de combatente do sistema do que em observar os protocolos diplomáticos tradicionais .

A reação internacional foi atípica para um fórum onde discursos são tradicionalmente recebidos com cortesia ritualística. Diferente de 2018, quando Trump foi explicitamente vaiado pelos delegados, desta vez a plateia permaneceu em grande parte em silêncio, oferecendo apenas aplausos polidos ao final . A falta de reação, no entanto, não deve ser interpretada como endosso. Muitos analistas veem no silêncio uma combinação de resignação e estratégia, na qual líderes mundiais preferem evitar confrontos diretos com o presidente americano, especialmente em um ano eleitoral, concentrando-se em negociações nos bastidores .

O discurso de Trump na ONU consolida uma doutrina de desengajamento americano das estruturas multilaterais que elegeram os EUA como potência global hegemônica no pós-guerra. Ao retirar financiamento de agências da ONU, descreditar alianças como a OTAN e desmantelar programas de ajuda internacional, a administração Trump bet na tese de que o poder nacional é melhor exercido através de relações bilaterais e da imposição unilateral de poder econômico e militar . O TRATEAQUI Notícias apurou que, nos corredores da diplomacia internacional, a avaliação é de que essa estratégia pode gerar ganhos de curto prazo em negociações específicas, mas enfraquece permanentemente a capacidade de Washington de liderar uma ordem internacional estável, abrindo espaço para o fortalecimento de potências rivais como China e Rússia.

Por fim, o legado imediato desse discurso é a clara ruptura entre a visão de mundo de Trump e a de seus predecessores, tanto democratas quanto republicanos. Ao declarar que os países dos presentes “estão indo para o inferno”, o presidente americano não estava apenas fazendo uma crítica política; ele estava rejeitando a própria ideia de uma comunidade internacional com valores e desafios compartilhados. Esta postura não apenas redefine o papel dos Estados Unidos no mundo, mas também sinaliza para autocratas e aliados que, pelo menos até 2029, a Casa Branca será uma fonte de confronto, e não de consenso, na governança global. O multilateralismo saiu ferido do salão da Assembleia Geral, e a pergunta que permanece é se as instituições que ordenaram o mundo por 80 anos conseguirão sobreviver a mais quatro anos de assédio trumpista.

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