O mercado de carros usados e seminovos no Brasil não está apenas em alta; ele está reescrevendo as regras do setor automotivo e expondo uma escolha racional e conservadora do consumidor brasileiro frente a um cenário de incertezas. Dados consolidados da Federação Nacional das Associações dos Revendedores de Veículos Automotores (Fenauto) revelam que o primeiro semestre de 2025 fechou com um volume histórico de 8,35 milhões de unidades comercializadas, um crescimento robusto de 13,7% em comparação com o mesmo período de 2024. Este não é um mero indicador de conjuntura; é a prova definitiva de que o brasileiro, asfixiado pelos altos preços dos veículos zero quilômetro e por um crédito cada vez mais restrito, encontrou no mercado de usados um porto seguro de custo-benefício e racionalidade económica.
A dimensão desse mercado é tão colossal que chega a ser cinco vezes maior do que o de carros novos, um dado que por si só deveria servir como um alerta para a indústria e para o governo. Enquanto o varejo de produtos nacionais zero quilômetro chegou a cair no acumulado do ano, conforme alertou a Anfavea, o segmento de usados segue em franca expansão, sustentado por uma base sólida e diversificada de consumidores. Este movimento não é um acaso, mas sim uma resposta lógica a um ambiente onde a isenção de IPI para alguns modelos novos, do programa Carro Sustentável, mostrou-se insuficiente para conter a queda geral de 5,1% nas vendas de zero km em agosto. O TRATEAQUI Notícias apurou que, nos bastidores, concessionárias relatam que o apetite do público por modelos com até três anos de uso disparou, pois oferecem tecnologia recente por uma fração do preço, sem a desvalorização imediata da saída da loja.
A liderança absoluta nesse mercado robusto continua com o Volkswagen Gol, um verdadeiro fenômeno de resistência comercial. Nos primeiros seis meses de 2025, incríveis 372.834 unidades do hatchback mudaram de dono, um número que equivale à venda de toda a frota de muitos modelos zero km em anos inteiros. O Gol não apenas lidera, mas o faz com uma vantagem avassaladora, quase dobrando a performance do segundo colocado, o Chevrolet Onix, com 201.479 unidades. O pódio é completado pelo Hyundai HB20, com 199.414 vendas, fechando um trio de feras que domina as preferências nacionais pela combinação de manutenção acessível, robustez e ampla oferta de peças.
Entre os comerciais leves, a hegemonia é da Fiat Strada. A picape pequena consolidou-se como a ferramenta de trabalho preferida dos empreendedores brasileiros, com 195.475 unidades vendidas no semestre, deixando para trás a concorrente direta Volkswagen Saveiro, que emplacou 116.543 unidades. O terceiro lugar ficou com a Toyota Hilux, com 96.089 vendas, demonstrando que mesmo em um segmento de alto valor, a confiabilidade é um ativo intocável. Este ranking não é apenas uma lista de vendas; é um termômetro fiel da economia real, mostrando a força dos pequenos negócios que buscam eficiência e durabilidade sem ostentação.
Um dos dados mais reveladores da pesquisa da Fenauto é a análise por idade dos veículos. Os chamados “carros velhinhos”, com 13 anos ou mais de uso, foram os mais vendidos, representando uma impressionante marca de 2.988.129 unidades no semestre. Este número, o maior de todas as faixas etárias, desnuda a realidade de uma grande parcela da população que prioriza o custo de aquisição inicial mais baixo acima de tudo, mesmo que isso signifique abrir mão de tecnologias mais recentes e enfrentar possíveis custos de manutenção mais frequentes. Os “usados jovens” (4 a 8 anos) vêm em seguida, com 1.973.299 vendas, apontando para um público que busca um equilíbrio entre modernidade e preço acessível.
O cenário económico é o combustível e, ao mesmo tempo, o freio desse mercado. Por um lado, a média diária de vendas em junho atingiu a segunda melhor marca desde 2019, chegando a 75.636 veículos, um sinal de vitalidade inegável. Por outro lado, o presidente da Fenauto, Enilson Sales, expressou preocupação com a restrição do crédito e as incertezas relacionadas ao IOF, fatores que podem “gerar dificuldades para o comprador de carro” e esfriar este crescimento no futuro. Esta é a encruzilhada atual: o mercado de usados prova sua resiliência, mas não é imune aos ventos contrários da política económica nacional.
Paralelamente ao boom dos usados, o mercado de zero km apresenta quedas alarmantes em modelos específicos, um contraste que merece análise. Dados de janeiro a julho de 2025 mostram que o Peugeot 208 teve uma queda de 58,6% nas vendas, enquanto o Toyota Yaris (hatch e sedã) despencou 76,3% e 67,3%, respectivamente. Estes números refletem a migração de consumidores para opções mais consolidadas no mercado de seminovos ou para marcas que agressivamente aderiram aos incentivos do programa Carro Sustentável. O brasileiro está votando com a carteira, e seu veredito é claro: valor tangible acima de novidades passageiras.
O perfil do consumidor de usados em 2025 também mudou radicalmente. De acordo com análises setoriais, o comprador atual é hiperinformado, conectado e exigente. Ele chega à loja ou à plataforma digital sabendo exatamente o que quer, tendo pesquisado modelos, faixas de preço e histórico de manutenção. A reputação online da revendedora, baseada em avaliações em redes sociais e Google, tornou-se decisiva para a concretização da venda. Este cliente prioriza o custo-benefício acima da ostentação, valorizando economia, eficiência e manutenção acessível, em um claro sinal de maturidade financeira em tempos de vacas magras.
Em conclusão, o recorde do mercado de usados em 2025 é muito mais do que um número positivo em um relatório. É a materialização de uma estratégia económica conservadora adotada por milhões de brasileiros que, confrontados com a complexidade tributária sobre os carros novos e a instabilidade creditícia, optaram pela rota da prudência. Este crescimento robusto sinaliza um consumidor que não foi engolido por incentivos fiscais pontuais, mas que soube encontrar no mercado de seminovos e usados um refúgio de valor real, confiabilidade e bom senso. Enquanto o governo tenta estimular o novo com medidas de efeito questionável, o povo, na sua sabedoria prática, elegeu o usadão como seu veículo de escolha, ditando uma verdade inconveniente: na economia real, a inteligência financeira sempre vencerá a ilusão do consumo impulsivo.














