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Uma onda de intoxicações graves e mortes provocada por bebidas adulteradas com metanol tomou conta do estado de São Paulo, transformando momentos de descontração em tragédias. O TRATEAQUI Notícias apurou que, em um cenário considerado atípico e fora do padrão pelas autoridades de saúde, o país já registra 22 casos, incluindo sete confirmados e cinco mortes em investigação, todos concentrados no estado, que se tornou o epicentro de uma crise de saúde pública que evidencia a fragilidade dos mecanismos de controle .

Diferentemente de surtos anteriores, que frequentemente envolviam populações em situação de vulnerabilidade, as vítimas atuais são pessoas que consumiram gin, uísque e vodca em bares e adegas considerados comuns, um dado que acendeu um alerta geral e levou o Ministério da Justiça a acionar a Polícia Federal para investigar uma rede de distribuição que pode operar em múltiplos estados . Enquanto as autoridades correm para conter a crise, especialistas alertam: o metanol é um assassino silencioso, impossível de ser detectado pelos sentidos humanos e cujas consequências são devastadoras .

As histórias por trás dos números são chocantes e ilustram a gravidade do que está em jogo. Rafael Martins, um jovem que consumiu gin com amigos, gravou um áudio dizendo “Tá tudo rodando, parece que tô com a pressão baixa” antes de entrar em coma. Sua mãe, Helena Martins, relatou ao Fantástico que o quadro do filho é irreversível: “Ele está respirando pelo ventilador, não tem fluxo sanguíneo cerebral. Segundo a medicina, é irreversível” . Outra vítima, Radharani Domingos, de 43 anos, perdeu completamente a visão após ingerir três caipirinhas preparadas com vodca em um bar localizado em um bairro nobre da capital paulista . Estes são apenas alguns dos rostos de uma crise que já levou o governo a criar um gabinete de crise e a determinar a notificação imediata de qualquer caso suspeito em todo o território nacional .

O TRATEAQUI Notícias apurou que a substância traiçoeira no centro do surto, o metanol (CH₃OH), é um álcool industrial utilizado legalmente em produtos como anticongelantes e limpadores de para-brisa, jamais destinado ao consumo humano . Sua alta toxicidade, no entanto, não se manifesta imediatamente. O médico toxicologista Alvaro Pulchinelli explica que a substância é uma “substância traiçoeira” justamente por não ter cheiro ou gosto característico que possa alertar o consumidor . O perigo real surge horas depois, quando o fígado metaboliza o composto, transformando-o em formaldeído e, posteriormente, em ácido fórmico .

De acordo com especialistas consultados pelo TRATEAQUI Notícias, é o ácido fórmico o grande vilão. Ele se acumula na corrente sanguínea, causando uma acidose metabólica severa – um estado em que o sangue se torna excessivamente ácido – e ataca diretamente as mitocôndrias das células, prejudicando a produção de energia. Esse processo é o responsável por danos catastróficos e frequentemente irreversíveis, como a cegueira, provocada pela lesão ao nervo óptico, e a falência múltipla de órgãos, que pode levar ao óbito . O médico Christopher Morris, professor da Universidade de Newcastle, no Reino Unido, compara a ação do formiato, um dos subprodutos, à do cianeto, por sua capacidade de interromper a produção de energia celular, sendo o cérebro e os olhos particularmente vulneráveis .

Enquanto as vítimas lutam pela vida nas UTIs, as autoridades policiais se mobilizam para desmantelar a rede criminosa por trás da adulteração. A Polícia Civil de São Paulo já promoveu a interdição de bares e a apreensão de mais de 50 mil garrafas com suspeita de adulteração . Em uma operação no município de Americana, no interior paulista, dois indivíduos foram presos sob suspeita de falsificação e adulteração de bebidas . Paralelamente, a Polícia Federal abriu seu próprio inquérito, cujo foco é rastrear a origem do metanol utilizado no esquema. O diretor-geral da PF, Andrei Augusto Passos Rodrigues, afirmou que investiga conexões com investigações recentes sobre a cadeia de combustíveis, uma vez que parte da importação de metanol passa pelo porto de Paranaguá, no Paraná .

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Um ponto de acirrado debate, levantado pela Associação Brasileira de Combate à Falsificação (ABCF), é o possível envolvimento do crime organizado. Em nota, a associação especulou que o metanol poderia ser o mesmo importado ilegalmente pela facção Primeiro Comando da Capital (PCC) para adulterar combustíveis. Com o fechamento de distribuidoras ligadas ao esquema, a entidade sugere que a facção pode ter redirecionado o produto estocado para destilarias clandestinas e quadrilhas de falsificadores de bebidas . No entanto, o governo estadual de São Paulo rapidamente se posicionou contra essa tese. O governador Tarcísio de Freitas foi taxativo: “Tem esse negócio em São Paulo, tudo que acontece é o PCC. Muito tem se especulado sobre a participação do crime organizado nessa adulteração. Só para deixar claro, não há evidência nenhuma de que haja crime organizado nisso” . Já o secretário da Segurança Pública, Guilherme Derrite, afirmou que a “hipótese de envolvimento da facção está totalmente descartada” .

Do ponto de vista médico, a batalha contra o tempo é a mais crucial. O médico norueguês Knut Erik Hovda, da Médicos Sem Fronteiras e um dos maiores especialistas mundiais em intoxicação por metanol, disse à BBC que a conscientização pública é a arma mais importante. “É importante divulgar a informação para as pessoas. E mensagens como: tenha cuidado com o que você bebe ou procure um posto de saúde se você sentir sintomas”, afirmou Hovda, classificando o metanol como um “assassino silencioso” cujos sintomas vagos – como dor abdominal, náusea, visão turva e uma ressaca severa que surge mais de 12 horas após o consumo – podem fazer com que as vítimas percam a janela de tratamento .

O tratamento em si é um paradoxo da medicina: para salvar o paciente, os médicos administram mais álcool. O etanol, o álcool comum, atua como um antídoto ao competir com a mesma enzima hepática (álcool desidrogenase) que metaboliza o metanol em suas formas tóxicas. “Quando você usa o etanol, que é menos tóxico que o metanol, você acaba competindo com a via de metabolização e passa a formar menos formaldeído a partir do metanol, permitindo que o metanol seja excretado na urina”, explica o hepatologista Raymundo Paraná . Esse tratamento, combinado com hemodiálise para filtrar as toxinas do sangue, pode salvar vidas se iniciado precocemente. No Brasil, o tratamento é feito com etanol farmacêutico em cerca de 30 centros de referência. Existe um antídoto mais moderno e eficaz, o fomepizol, mas seu custo proibitivo – cerca de mil euros por dose – e a falta de interesse da indústria farmacêutica em registrá-lo no país o tornam inacessível, uma situação que o Ministério da Saúde agora estuda reverter com a criação de uma reserva estratégica .

Diante de uma crise que explora as brechas de um mercado informal e a desconfiança do consumidor, a pergunta que fica é: como se proteger? A resposta, de acordo com um levantamento feito pelo TRATEAQUI Notícias junto a associações do setor e órgãos de defesa do consumidor, reside na valorização da legalidade e da rastreabilidade. O Procon-SP e a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) são unânimes em orientar os consumidores a desconfiarem de preços muito abaixo do mercado, a exigirem nota fiscal – que é a garantia de rastreabilidade – e a verificarem cuidadosamente as embalagens em busca de lacres violados, rótulos mal impressos ou colados e a ausência de selos fiscais, como o do IPI e do MAPA . A Abrasel vai além e recomenda que bares e restaurantes inutilizem as garrafas vazias antes do descarte, quebrando-as para impedir que sejam reutilizadas por falsificadores, uma medida simples que poderia dificultar a ação dos criminosos .

A crise do metanol em São Paulo é mais do que uma série de eventos isolados; é um sintoma de um problema estrutural. Ela escancara as consequências de um ambiente de negócios onde a fraude pode prosperar à sombra de uma fiscalização ineficiente, punindo não apenas os consumidores finais, mas também os milhares de estabelecimentos sérios que cumprem a lei e veem seu nome ser manchado pela ação de criminosos. Em um livre mercado que preza pela livre iniciativa, a responsabilidade individual e a segurança do consumidor são pilares não negociáveis. A falha em garantir esses princípios básicos, seja por ação ou omissão, cobra um preço que, como mostram os casos recentes, pode ser a própria vida.

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