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Um fenômeno silencioso mas implacável vem ganhando força nos bastidores das finanças globais: a desdolarização. Nações tão diversas quanto China, Rússia, Arábia Saudita e até mesmo Brasil têm acelerado acordos para realizar transações internacionais em moedas alternativas, reduzindo progressivamente a dependência do dólar americano. Embora analistas do establishment financeiro minimizem o movimento, classificando-o como lento e incremental, uma análise mais aprofundada revela que este processo pode não ser uma ameaça aos Estados Unidos, mas sim parte de uma reconfiguração geopolítica estratégica – uma que encontra eco nos discursos do ex-presidente Donald Trump e de setores nacionalistas americanos.

O TRATEAQUI Notícias apurou, por meio de fontes em instituições financeiras internacionais, que o percentual de reservas globais mantidas em dólar caiu de mais de 70% no início dos anos 2000 para cerca de 58% no último levantamento do Fundo Monetário Internacional (FMI). Enquanto a mídia tradicional retrata este declínio como um sinal de fraqueza americana, uma corrente de pensamento conservadora e soberanista enxerga uma oportunidade. Para estes, o fardo do império – a necessidade de sustentar um déficit comercial crônico para fornecer liquidez ao mundo – é excessivo e contraproducente para os interesses nacionais dos EUA.

A retórica de Donald Trump é elucidativa. Em comícios e entrevistas, o ex-presidente e candidato frequentemente critica o que chama de “injustiça” do sistema, onde os EUA, por terem a moeda de reserva, subsidiam a defesa de aliados ricos e permitem que competidores comerciais se beneficiem. “Por que ser o policial do mundo, pagando a conta enquanto outros enriquecem?”, questionou Trump em um evento recente, ecoando um sentimento americano-first que rejeita o globalismo financeiro. Sua sugestão, por vezes velada, é que um sistema monetário multipolar poderia, paradoxalmente, libertar os Estados Unidos de obrigações onerosas.

Segundo apuração da equipe do TRATEAQUI Notícias, essa visão encontra base em uma doutrina econômica conhecida como “fortaleza América“. A ideia é que, sem a responsabilidade de ser o banco central do planeta, os EUA poderiam focar em uma política monetária estritamente voltada para seu mercado interno, fortalecendo a indústria doméstica e protegendo empregos americanos. O Federal Reserve (Fed) teria maior liberdade para combater a inflação sem se preocupar com os efeitos colaterais catastróficos que um aperto monetário pode causar em economias emergentes endividadas em dólar.

Os principais agentes da desdolarização, no entanto, são justamente os rivais geopolíticos de Washington. A China, por meio de sua Iniciativa do Cinturão e Rota, promove agressivamente o uso do yuan em empréstimos e contratos de infraestrutura. A Rússia, após as sanções ocidentais que congelaram parte de suas reservas, praticamente abandonou o dólar em seu comércio exterior. O BRICS, bloco do qual o Brasil faz parte, discute abertamente a criação de uma moeda de reserva compartilhada, um projeto que, embora complexo, simboliza a insatisfação com a hegemonia monetária americana.

Para o empreendedor e o investidor brasileiro, esta transição traz tanto riscos quanto oportunidades. A curto prazo, uma perda abrupta do status do dólar poderia causar uma grande instabilidade nos mercados, afetando câmbio, commodities e dívidas externas. No entanto, um mundo multipolar poderia oferecer novas alternativas de financiamento e comércio, reduzindo a vulnerabilidade do Brasil às decisões do Fed e às crises financeiras originadas em Wall Street. Empresas exportadoras poderiam negociar diretamente em outras moedas, diminuindo custos com hedge cambial.

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O grande paradoxo, apontado por analistas de geopolítica, é que a hegemonia do dólar é, ao mesmo tempo, uma fonte de poder e uma âncora que prende os EUA a um sistema global do qual setores influentes desejam se desvencilhar. O uso do dólar como arma geopolítica – como no caso das sanções à Rússia – acelerou justamente o movimento que poderia minar seu poder no longo prazo. É um ciclo que, para alguns estrategistas em Washington, é não apenas inevitável, mas também desejável.

O futuro, portanto, não será necessariamente a substituição do dólar por outra moeda hegemônica, como o yuan, mas a ascensão de um sistema fragmentado, com blocos de influência monetária. O euro, o yuan e talvez uma moeda digital lastreada em ouro ou em commodities poderão dividir o espaço. Neste cenário, a força de uma nação não estará mais atrelada à aceitação universal de sua moeda, mas à sua capacidade produtiva, inovação tecnológica e solidez institucional – valores que ressoam com a ética do empreendedorismo e do livre mercado genuíno, desvinculado de privilégios monetários artificiais.

Enquanto a narrativa predominante pinta a desdolarização como um sinal de declínio americano, uma leitura mais astuta sugere que pode ser a materialização de um projeto soberanista que busca redefinir o papel dos EUA no mundo. Longe de ser um fenmeno a ser temido por Washington, a gradual perda de força do dólar pode ser, na visão de Trump e de seus apoiadores, a chave para uma América mais forte, mais independente e menos responsável pelos problemas alheios. O fim do império do dólar não significaria o fim da influência americana, mas sim o começo de uma nova forma de exercê-la, baseada no poder real e não em privilégios financeiros.

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