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Um terremoto geopolítico de proporções históricas sacode a política internacional neste mês de setembro de 2025. Em um movimento coordenado que sinaliza uma mudança de paradigma nas relações com o conflito no Oriente Médio, três dos mais sólidos aliados ocidentais de Israel – Reino Unido, Canadá e Austrália – anunciaram no domingo, 21 de setembro, o reconhecimento formal do Estado da Palestina. A medida, tomada às vésperas dos debates de alto nível da 80ª                         Assembleia Geral da ONU em Nova York, é um recado claro e contundente ao governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e representa o mais grave sintoma de isolamento diplomático que Israel já enfrentou nas décadas recentes. A decisão, seguida quase imediatamente por Portugal, não é um gesto solitário, mas a peça central de uma estratégia mais ampla para tentar ressuscitar a solução de dois Estados, vista pela comunidade internacional como a única saída viável para uma paz duradoura, mas que parecia enterrada pelos incessantes anos de conflito e expansão de assentamentos.

O anúncio foi feito de forma quase simultânea pelos líderes das três nações. Em Londres, o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, declarou em um vídeo que “o momento ha llegado“. Ele justificou a decisão afirmando que, “ante el creciente horror en Medio Oriente, estamos actuando para mantener viva la posibilidad de la paz y de una solución de dos estados“. Starmer foi enfático ao diferenciar o reconhecimento de qualquer benefício ao Hamas, grupo que classifica como terrorista: “Esta solución no es una recompensa para Hamás“, disse, argumentando que a medida significa, na verdade, que o Hamas “no puede tener futuro, ningún papel en el gobierno y ningún papel en la seguridad“. Do outro lado do Atlântico, o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, anunciou que o Canadá “reconoce al Estado de Palestina y ofrece nuestra colaboración para construir la promesa de un futuro pacífico“. Um alto funcionário do governo canadiense detalhou que o reconhecimento visa “empoderar a quienes buscan la coexistencia pacífica y marginar a Hamas“, condicionando o passo a reformas na Autoridade Palestina e à exclusão do grupo militante de futuras eleições.

Esta não é uma iniciativa isolada de um pequeno grupo de países. Ela ocorre no contexto de uma conferência internacional de alto nível sobre a questão palestina co-presidida por França e Arábia Saudita durante a Assembleia Geral da ONU. A França já sinalizou fortemente sua intenção de se juntar ao movimento, com o presidente Emmanuel Macron confirmando planos de reconhecer o Estado palestino. Bélgica, Luxemburgo e San Marino também estão entre os governos que planejam dar passos semelhantes nesta semana, em um efeito dominó que promete amplificar o impacto diplomático dos anúncios de domingo. O TRATEAQUI Notícias apurou que a estratégia por trás dessa ação coordenada é criar uma massa crítica de reconhecimentos por parte de nações influentes do G7 e da União Europeia, exercendo uma pressão sem precedentes sobre Israel e seus aliados mais próximos. O objetivo declarado é preservar a possibilidade de um Estado palestino viável antes que as ações no terreno – como a expansão de assentamentos em Jerusalém Oriental e na Cisjordânia – a tornem impossível na prática.

A reação israelense foi de imediata e furiosa condenação. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu emitiu um comunicado contundente no mesmo domingo, prometendo que “no habrá un Estado palestino“. Ele dirigiu uma mensagem clara aos líderes ocidentais: “Tienen un mensaje claro para aquellos líderes que reconocen un Estado palestino después de la horrible masacre del 7 de octubre: están dando un enorme premio al terrorismo“. O presidente israelense, Isaac Herzog, qualificou a data como “un día triste para quienes buscan la verdadera paz”. Membros ultranacionalistas do gabinete de Netanyahu, como o ministro Itamar Ben Gvir, foram além e responderam aos anúncios instando o governo a anexar a ocupada Cisjordânia, uma medida que seria vista pela comunidade internacional como um ponto de não retorno para o conflito. Do lado palestino, a recepção foi positiva, mas cautelosa. O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, saudou a decisão britânica como um “paso importante y necesario“. Já um alto membro do Hamas, Basem Naim, considerou o passo “bem-vindo“, mas alertou que precisa ser acompanhado de “medidas prácticas sobre el terreno”.

Um dos aspectos mais significativos desse movimento é o perfil dos países envolvidos. Reino Unido, Canadá e Austrália não são nações periféricas ou tradicionalmente alinhadas à causa palestina. Pelo contrário, são aliados históricos de Israel, com fortes laços culturais, políticos e de inteligência décadas. O Canadá e o Reino Unido são, inclusive, os primeiros países do G7 a formalizar esse reconhecimento, um clube das economias mais industrializadas do mundo do qual os Estados Unidos são o membro mais proeminente. Essa mudança de postura entre parceiros tradicionais é o que confere ao episódio um caráter histórico e transformador. De acordo com levantamento feito pelo TRATEAQUI Notícias com base em dados internacionais, com essa nova leva de reconhecimentos, aproximadamente três quartos dos 193 países-membros da ONU já reconhecem o Estado palestino. A lista inclui a maioria das nações da América Latina, como o Brasil – que reconheceu a Palestina em 2010 –, quase toda a África, todos os países árabes e potências como Rússia, China e Índia.

No entanto, uma pergunta crucial permanece: o que significa, na prática, reconhecer um Estado que não exerce soberania plena sobre seu território? A Palestina é, nas palavras de analistas, um Estado que “existe e não existe”. Embora possua representação diplomática em vários países e até mesmo participe de competições esportivas, carece de elementos fundamentais de um Estado: não tem fronteiras internacionalmente acordadas, não tem controle sobre seu espaço aéreo ou marítimo, não tem um exército unificado e vê seu território fragmentado pela ocupação israelense. A Cisjordânia está dividida em áreas de controle israelense e palestino, e Gaza, após quase dois anos de uma guerra devastadora, está em ruínas. Além disso, há uma profunda divisão política interna entre a Autoridade Palestina, que governa partes da Cisjordânia, e o Hamas, que controla Gaza. As últimas eleições palestinas foram realizadas em 2006, o que significa que nenhum palestino com menos de 36 anos jamais votou. Esse vácuo de liderança e a falta de unidade representam um obstáculo colossal para a materialização efetiva de um Estado.

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O caminho para a plena estadidade palestina na ONU ainda é cheio de obstáculos. O reconhecimento bilateral por países individuais é uma coisa; a adesão plena às Nações Unidas é outra, muito mais complexa. Para se tornar um membro pleno da ONU, é necessário que ao menos nove dos 15 membros do Conselho de Segurança votem a favor e, o mais importante, que nenhum dos cinco membros permanentes (Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido) vete a proposta. Os Estados Unidos já deixaram claro sua posição, tendo vetado uma resolução similar em abril de 2024 e rejeitado publicamente os recentes movimentos de reconhecimento, argumentando que eles “recompensam o Hamas”. Com a mudança de posição do Reino Unido e a expectativa de que a França faça o mesmo, os EUA se encontrarão em uma posição de isolamento ainda mais acentuada, podendo em breve ser o único membro permanente do Conselho de Segurança a não reconhecer um Estado palestino. Essa pressão coloca o governo do presidente Donald Trump em uma situação delicada, forçando-o a escolher entre seu apoio incondicional a Netanyahu e o risco de ficar completamente à margem do consenso internacional que se forma.

Para os governos de Starmer, Carney e Albanese, o reconhecimento é uma tentativa de usar a alavanca diplomática para estancar a hemorragia no Oriente Médio. Eles argumentam que a situação em Gaza, com imagens de fome e devastação que o próprio Starmer classificou como “intoleráveis“, e a contínua expansão de assentamentos israelenses na Cisjordânia – ilegais perante o direito internacional – tornaram insustentável a manutenção do status quo. A iniciativa é um esforço para inverter uma dinâmica que, na visão desses líderes, estava conduzindo inexoravelmente ao colapso total da solução de dois Estados. O momento escolhido, no início da Assembleia Geral da ONU, não é casual. Trata-se de uma jogada para maximizar o impacto diplomático e colocar a questão palestina no centro dos debates globais, galvanizando apoio adicional e criando um novo impulso político. O gesto, embora em grande parte simbólico no curto prazo, tem o poder de alterar fundamente as narrativas e de reabrir um diálogo que parecia morto e enterrado.

Em última análise, os anúncios do Reino Unido, Canadá e Austrália representam muito mais do que um mero reconhecimento diplomático. Eles simbolham uma ruptura significativa na política externa ocidental em relação a Israel e ao conflito palestino. Este é um momento de realinhamento geopolítico, onde tradicionais aliados de Israel concluíram que a aposta no governo Netanyahu para buscar a paz esgotou-se e que é necessário tomar medidas concretas para preservar a possibilidade de um futuro Estado palestino. O movimento isola diplomaticamente Israel como nunca antes e coloca os Estados Unidos em uma posição defensiva. Embora a criação de um Estado palestino soberano e viável continue sendo um objetivo distante, dependente de uma solução negociada que hoje parece uma quimera, o reconhecimento por parte dessas nações poderosas reconfigura o tabuleiro geopolítico. Ele devolve a questão ao centro do debate internacional e envia uma mensagem inequívoca de que a inação e a perpetuação do conflito têm um custo diplomático crescente para Israel. O ocidente, ou pelo menos uma parte crucial dele, começou a virar as costas para as políticas israelenses, e o mundo muito provavelmente não será o mesmo depois disso.

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