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Em uma jogada estratégica que redefine o futuro da indústria automobilística nacional, as gigantes Stellantis e Toyota anunciaram investimentos massivos que somam a impressionante cifra de R$ 41,5 bilhões para a produção de veículos híbridos flex no Brasil. Esta ofensiva bilionária, concentrada no período de 2025 a 2030, representa muito mais do que uma simples aposta em novas tecnologias; é uma declaração de guerra pelo domínio do mercado sul-americano, buscando criar uma barreira intransponível contra a avançada das montadoras chinesas. Enquanto a Stellantis desembolsa R$ 30 bilhões, a maior parte destinada aos polos de Goiana (PE) e Betim (MG), a Toyota aplica R$ 11,5 bilhões na expansão de sua fábrica em Sorocaba (SP), em uma clara estratégia de defender seu território com unhas e dentes.

A Stellantis, dona de marcas como Fiat, Jeep, Peugeot e Citroën, não mede esforços para consolidar sua liderança. Seu plano de R$ 30 bilhões é o maior ciclo de investimentos já visto na história da indústria automotiva do Brasil e da América do Sul. Desse total, R$ 13 bilhões serão injetados no polo de Goiana, em Pernambuco, e outros R$ 14 bilhões em Betim, Minas Gerais, onde a empresa inaugurou o TechMobility – o maior centro de desenvolvimento de mobilidade híbrida-flex da América Latina . A estratégia tem um nome: Bio-Hybrid, uma tecnologia desenvolvida localmente que combina eletrificação com a queima de etanol, o combustível verde brasileiro.

O coração dessa estratégia já bate forte nas concessionárias. De acordo com o presidente da Stellantis para a América do Sul, Emanuele Cappellano, 70% dos pedidos dos modelos Fiat Pulse e Fastback já são na versão híbrida. A meta da empresa para 2025 é vender pelo menos 60 mil unidades híbridas, um número baseado no desempenho de 2024, quando foram vendidas mais de 60 mil unidades dos dois modelos combinados. A grande vantagem competitiva, segundo Cappellano, é o custo acessível: o acréscimo da tecnologia híbrida ao veículo é de apenas R$ 2.000, valor que se paga em menos de um ano através da economia de combustível, que chega a 25% no ciclo urbano.

Do outro lado do ringue, a Toyota adota uma postura mais gradual, porém igualmente determinada. Seus R$ 11,5 bilhões em investimentos até 2030 têm como foco principal a construção da Sorocaba II, uma nova fábrica com 160 mil m² de área construída que substituirá a unidade de Indaiatuba. A nova planta, que deve entrar em operação no segundo semestre de 2026, aumentará a capacidade produtiva da marca em 20%, podendo fabricar até 100 mil veículos por ano inicialmente, com potencial para chegar a 200 mil. A Toyota, pioneira na produção de híbridos no Brasil com o Corolla em 2019, não se contenta mais com passos lentos.

A resposta da Toyota à aceleração do mercado será uma enxurrada de novidades. Apenas no segundo semestre de 2025, a marca lançará o Yaris Cross híbrido flex, um SUV compacto que será o primeiro veículo de entrada no Brasil com essa propulsão, e uma versão híbrida do sedã Corolla GLI, mirando especificamente o mercado de frotistas e táxis. Para 2026, a empresa prepara a chegada de seus primeiros modelos 100% elétricos, além de promover a hibridização de veículos comerciais, incluindo a consagrada picape Hilux. O presidente da Toyota do Brasil, Evandro Maggio, defende a estratégia: “Não foi uma decisão para atender a uma regulamentação; foi construída junto com o cliente”.

Essa corrida tecnológica não ocorre por acaso. O TRATEAQUI Notícias apurou que os investimentos são uma resposta direta à invasão das marcas chinesas, como BYD e Great Wall Motors, que forçou as montadoras tradicionalmente instaladas no Brasil a se movimentarem com agilidade e volume de recursos sem precedentes. Soma-se a isso a influência do programa MOVER (Mobilidade Verde e Inovação), lançado pelo governo federal, que estabelece metas de redução de emissões sem definir tecnologias específicas, dando a flexibilidade que as montadoras precisavam para investir pesado em soluções adaptadas à realidade brasileira.

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No entanto, há um ponto de atrito crucial. Emanuele Cappellano, da Stellantis, é crítico aberto das cotas de isenção tributária para a importação de carros elétricos, majoritariamente chineses. Ele argumenta que tais políticas podem “criar distorções” e prejudicar a concorrência saudável, defendendo que os estímulos governamentais devem ser orientados a desenvolver a indústria local. Esta declaração revela a tensão subjacente: as montadoras investem bilhões para nacionalizar a produção, mas temem ser prejudicadas por incentivos a concorrentes que não geram emprego e renda dentro do país.

Um diferencial estratégico nesta guerra híbrida é o compromisso com a economia circular. Enquanto a Stellantis já inaugurou o primeiro desmanche de peças fora da Europa, prometendo vender componentes por menos de 50% do valor das peças novas, a Toyota também planeja seu próprio projeto de reciclagem de veículos. A ideia é fechar toda a cadeia produtiva, medindo a pegada de carbono “do berço ao túmulo”, um fator que se torna cada vez mais decisivo para consumidores conscientes e para a sustentabilidade dos negócios no longo prazo.

Os impactos desses investimentos vão muito além das linhas de montagem. De acordo com levantamento feito pelo TRATEAQUI Notícias, os projetos da Stellantis e da Toyota devem gerar, diretamente, milhares de novos empregos especializados. A Stellantis já criou 1.900 novas oportunidades, incluindo 400 engenheiros para seu centro tecnológico, enquanto a Toyota prevê 2.000 postos de trabalho em Sorocaba até 2030. Essa demanda por mão de obra qualizada pressiona o sistema educacional e técnico, exigindo uma sincronia entre a iniciativa privada e as instituições de ensino.

O movimento da Stellantis e da Toyota sinaliza uma mudança de paradigma na indústria global. Ao invés de simplesmente importar tecnologia europeia ou asiática, o Brasil se consolida como um polo de desenvolvimento de soluções específicas para suas necessidades e vantagens comparativas, com o etanol no centro da estratégia. Cappellano é enfático: “Temos tecnologias de ponta desenvolvidas localmente por engenheiros brasileiros. Isso é um ponto de força para estimular a indústria do país”. A aposta é que a hibridização flex seja uma exportação tecnológica futura.

A guerra híbrida travada pela Stellantis e Toyota no Brasil é, portanto, um capítulo decisivo na reindustrialização verde do país. Com investimentos sem precedentes, desenvolvimento tecnológico local e uma visão estratégica de longo prazo, as duas gigantes não estão apenas lutando por market share; estão moldando o futuro da mobilidade na América Latina. O vencedor desta batalha definirá não apenas quem dominará as estradas nas próximas décadas, mas também se o Brasil conseguirá, finalmente, transformar seu potencial em liderança tecnológica global. O confronto está apenas começando, mas os R$ 41,5 bilhões em jogo deixam claro que todas as cartas estão na mesa.

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