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O Banco Central brasileiro traçou sua linha de combate à inflação e a mensagem não poderia ser mais clara: o país deve se preparar para conviver com juros estratosféricos por um período “bastante prolongado”. A ata da 273ª reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada em 23 de setembro, sinaliza o fim do ciclo de altas, mas inaugura uma era de estagnação forçada da economia como remédio necessário para domar os preços. O texto revela que, após sete aumentos consecutivos que levaram a taxa Selic a 15% ao ano – o patamar mais alto em quase duas décadas –, o Comitê optou por interromper a escalada para avaliar os impactos já acumulados. No entanto, longe de sinalizar alívio, a autoridade monetária adota um tom de cautela extrema e não descarta retomar o aperto caso a inflação não recue conforme o projetado, em uma demonstração de que a guerra contra o avanço do custo de vida está longe do fim.

A decisão de manter os juros no pico atual não é um ponto de chegada, mas sim o início do que o próprio Copom classifica como um “novo estágio” na condução da política monetária. Nesta fase, a estratégia deixa de ser ofensiva e se torna uma vigilância constante. O objetivo declarado é “assegurar a convergência da inflação à meta”, um processo que, pelas projeções do Banco Central, será lento e doloroso. O colegiado deixou claro que a manutenção da taxa atual por um longo prazo é a ferramenta escolhida para garantir que a inflação, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), não apenas entre na meta de 3%, mas se aproxime do centro desse objetivo. Para 2025, a projeção ainda é de um IPCA de 4,8%, acima do limite superior da tolerância, com uma queda para 3,6% apenas em 2026.

O cenário externo de incertezas profundas é um dos pilares que justifica a postura conservadora do Copom. A ata destaca com preocupação o “tarifaço” imposto pelos Estados Unidos e as dúvidas sobre o ritmo de corte de juros pelo Federal Reserve (Fed), o banco central norte-americano. Estas variáveis criam um ambiente de instabilidade para economias emergentes como a brasileira, forçando seu banco central a uma “postura de cautela” para se proteger de choques internacionais. Enquanto o Fed já iniciou seu ciclo de afrouxamento monetário, o Brasil se vê obrigado a manter os juros altos, ampliando um diferencial que, embora atraia capitais estrangeiros, penaliza o crescimento interno.

No front doméstico, o Copom observa uma “certa moderação no crescimento” da atividade econômica, um sinal de que os juros altos começam a surtir o efeito esperado de esfriar a demanda. No entanto, este mesmo documento aponta um contraponto perigoso: a inflação de serviços se mantém “resiliente”, impulsionada por um mercado de trabalho ainda aquecido, que registra taxas de desemprego historicamente baixas. Este é um nó crucial para a política monetária, pois indica que a pressão sobre os preços vem de setores menos sensíveis ao crédito e mais ligados à renda, tornando o trabalho do Banco Central mais complexo. O TRATEAQUI Notícias apurou que, internamente, há o entendimento de que o combate a essa inflação teimosa exigirá paciência, sem espaço para manobras bruscas.

Para o setor produtivo, a perspectiva de juros altos prolongados é recebida como um balde de água fria. A confiança do industrial já apresenta quedas consecutivas, com índices que remetem ao período mais crítico da pandemia. O custo do crédito para empresas disparou, com taxas médias saltando de 20,6% para cerca de 26% ao ano, inviabilizando investimentos em expansão e modernização de fábricas. A consequência direta é o congelamento de projetos e o risco real de demissões, criando um ciclo vicioso de baixa produção e contração econômica que pode, no limite, levar o país a uma recessão técnica.

O cidadão comum sente no bolso o aperto monetário duplo. Por um lado, o crédito ao consumidor se tornou proibitivamente caro, com juros pessoais subindo de 52,3% para 57,4% ao ano. Isso significa a postergação de sonhos como a compra de um carro ou de um imóvel, e a redução do consumo de bens duráveis, o que afeta diretamente o comércio e a indústria. Por outro lado, mesmo quem poupa é penalizado: o ganho real com investimentos de renda fixa é corroído pela inflação ainda alta. Especialistas consultados pela reportagem alertam que, neste ambiente, os investimentos pós-fixados, atrelados à Selic, seguem como opção mais segura, enquanto os títulos prefixados exigem cautela extrema.

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A análise do TRATEAQUI Notícias indica que o Banco Central se vê encurralado em um dilema clássico. Se por um lado a manutenção de juros altos é o instrumento técnico para controlar a inflação, por outro, ela age como um potente freio à atividade econômica. O que a ata do Copom revela é uma aposta calculada de que o sacrifício do crescimento no curto prazo é um preço aceitável para evitar um descontrole generalizado de preços, que seria social e economicamente mais devastador no médio prazo. É uma opção pelo mal menor, ainda que impopular.

O mercado financeiro, por sua vez, já internalizou a mensagem e projeta estabilidade na Selic até o final de 2025. O Boletim Focus, pesquisa semanal com instituições financeiras, aponta que a taxa só deve sofrer um corte modesto de 0,25 ponto percentual no início de 2026, para 14,75% ao ano. A trajetória de queda ao longo do próximo ano é estimada de forma gradual, com a Selic fechando 2026 em 12,25%. Isso significa que, na prática, o Brasil viverá pelo menos mais 12 meses com o custo do dinheiro nos patamares mais elevados em uma geração.

Em última análise, a ata do Copom é um documento que prioriza a credibilidade acima da popularidade. A linguagem técnica e cautelosa esconde uma verdade dura: o caminho para domar a inflação será longo e exigirá disciplina. A autoridade monetária sinaliza que não cederá a pressões políticas por cortes de juros precipitados, arriscando um novo surto inflacionário que poderia jogar por terra todo o esforço realizado até aqui. O recado às famílias, aos empresários e ao governo é que a era do dinheiro barato acabou, e que a contenção fiscal e o controle dos gastos públicos são companheiros indispensáveis para que a política monetária possa, eventualmente, aliviar a mão no futuro. O remédio é amargo, mas o Banco Central acredita que a alternativa – uma inflação descontrolada – seria um mal muito pior.

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