Em um movimento estratégico que redefine as alianças económicas globais, os governos do Brasil e do Reino Unido oficializaram nesta semana uma parceria de longo alcance que promete abalar as estruturas do comércio internacional. A reunião de alto nível, liderada em Brasília pelo secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Márcio Elias Rosa, e pelo ministro de Comércio britânico, Sir Chris Bryant, foi muito além da diplomacia protocolar: resultou na assinatura de acordos concretos que criam uma nova arquitetura de cooperação económica, comercial e tecnológica entre as duas nações. Este alinhamento ocorre em um momento crucial, onde ambos os países buscam alternativas sólidas perante um cenário internacional marcado pelo protecionismo e pelas altas tarifas impostas pelos Estados Unidos de Donald Trump.
O cerne dos entendimentos reside em três pilares tangíveis. O primeiro é um Memorando de Entendimento para impulsionar as exportações por meio do compartilhamento de riscos entre a Agência Brasileira Gestora de Fundos Garantidores (ABGF) e sua homóloga britânica, a UK Export Finance (UKEF). Este mecanismo inovador permite que bens e serviços com valor agregado de ambos os países tenham o financiamento da operação segurado simultaneamente pelas duas agências. Um exemplo prático e emblemático são as aeronaves da Embraer, que utilizam motores britânicos: suas exportações poderão agora contar com um apoio financeiro conjunto, reduzindo custos e aumentando a competitividade. É a tecnocracia a serviço do crescimento.
O segundo pilar é um compromisso com a modernização regulatória. Foi assinado um memorando para a adoção de boas práticas regulatórias, com o objetivo expresso de criar um ambiente mais eficiente e transparente para negócios, além de um Termo de Referência para a criação de um Grupo de Trabalho sobre Avaliação de Conformidade. Este grupo terá a missão complexa de superar barreiras técnicas ao comércio bilateral e estudar a viabilidade de um Acordo de Reconhecimento Mútuo, medidas que, se bem-sucedidas, reduzirão burocracia, custos e ampliarão o acesso a mercados. O TRATEAQUI Notícias apurou que a desburocratização é vista pelas equipes técnicas como uma “reforma silenciosa” capaz de destravar milhões em comércio.
O terceiro e mais ambicioso pilar é a busca por um acordo de livre-comércio entre o Reino Unido e o Mercosul. Em declarações à imprensa, Sir Chris Bryant foi direto: “Eu amaria ver um forte acordo de livre comércio entre Mercosul e Reino Unido”. O ministro britânico fez um apelo público ao Brasil, reconhecendo seu papel central no bloco: “Vamos lá, Brasil, você é o maior player nisso. Você realmente quer que isso aconteça? Se sim, nos diga agora, e vamos progredir rapidamente”. Bryant deixou claro que não deseja uma negociação que se estenda por 25 anos, como quase ocorreu com a União Europeia, e sugeriu que partes do processo poderiam ser aceleradas com base nos acordos recentes do Mercosul com a EFTA (European Free Trade Association).
Esta parceria reforçada não surge no vácuo, mas é nutrida por uma base jurídica em construção. Um elemento fundamental que aguarda ratificação é o Acordo para Evitar a Dupla Tributação (ADT), assinado em 2022. Este acordo, considerado o marco mais importante na relação bilateral em anos, eliminará a dupla tributação de renda, proporcionando segurança jurídica e previsibilidade para investimentos de longo prazo. O setor privado já demonstra otimismo: sondagem da Câmara Britânica de Comércio (Britcham) indica que 37% das empresas esperam aumentar investimentos no Brasil quando o acordo vigorar, com impactos positivos em setores como bancário, farmacêutico, mineração e telecomunicações.
O contexto geopolítico imediato não pode ser ignorado. As declarações do ministro Bryant ocorrem poucos dias após o governo dos Estados Unidos, sob Donald Trump, impor tarifas de 50% sobre produtos brasileiros – a maior alíquota entre todos os países penalizados. Em contraste, os produtos britânicos foram tarifados em 10%, e Londres já fechou um acordo setorial com Washington. Embora Bryant afirme que o “tarifaço” não é a principal razão para aproximação com o Brasil, a manobra configura uma sábia diversificação de risco por parte das duas economias, que buscam reduzir sua vulnerabilidade a decisões unilaterais americanas.
O encontro também serviu para que o Brasil apresentasse suas âncoras de desenvolvimento interno, como o programa Nova Indústria Brasil, que prevê R$ 1,2 trilhão em investimentos até 2026, e o Novo PAC. Márcio Elias Rosa reforçou o compromisso do Brasil com o multilateralismo e com o fortalecimento da Organização Mundial do Comércio (OMC), posicionando-se claramente contra medidas unilaterais que prejudiquem o comércio global. Do lado britânico, foram detalhadas as novas Estratégias Comercial e Industrial do governo trabalhista, mostrando que há uma convergência programática para além da conveniência momentânea.
O potencial económico desta aliança é substancial. Em 2024, o fluxo comercial bilateral atingiu a marca de US$ 6,2 bilhões. As exportações brasileiras são dominadas por commodities como ouro, soja e café, enquanto importamos principalmente medicamentos, obras de ferro ou aço e bebidas alcoólicas do Reino Unido. A parceria tem o potencial de agregar valor e diversificar esta pauta, especialmente com a previsão de cooperação em áreas de fronteira como inteligência artificial e sustentabilidade. O Reino Unido, como grande importador de alimentos, representa um mercado natural para o agronegócio brasileiro, que hoje enfrenta barreiras concorrenciais desleais de países europeus com acesso privilegiado.
A celebração dos 200 anos de relações diplomáticas entre Brasil e Reino Unido durante a reunião não foi mero acaso simbólico. Foi um recado claro de que se trata de uma parceria matura, que pretende se projetar para o futuro. Como afirmou Sir Chris Bryant, “Minha visita ajudou a destravar algumas das dificuldades enfrentadas por empresas britânicas (…), trazendo benefícios práticos e abrindo novas oportunidades comerciais”. A mensagem subjacente é de que, enquanto alguns países erguem muros, Brasil e Reino Unido preferem construir pontes.
Em última análise, a parceria estratégica entre Brasil e Reino Unido representa uma opção clara por um modelo de desenvolvimento baseado na abertura económica e na inovação. É uma aposta na capacidade de duas das principais democracias ocidentais de demonstrarem que a rota para a prosperidade no século XXI não passa pelo isolamento, mas pela integração inteligente e mutually beneficial. Se os acordos firmados forem implementados com a agilidade desejada pelas partes, e se a visão de um acordo de livre-comércio broader se concretizar, o eixo Londres-Brasília pode se tornar um dos grandes dinamizadores da economia global nos próximos anos, desafiando a ordem estabelecida e criando um novo polo de crescimento. O mundo observa, e o relógio da história começa a correr.














