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O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, foi recebido na Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados nesta quarta-feira, 24 de setembro, não por um debate técnico sobre os rumos da economia, mas por um bate-boca acirrado que sintetiza a guerra política em torno da carga tributária brasileira. O evento, que deveria discutir políticas para o agronegócio, rapidamente degenerou em um campo de batalha ideológica, com o ministro sendo interpelado como “Taxad” pelo deputado Delegado Caveira (PL-PA) e respondendo com a afirmação de que a “maior vagabundagem tributária” foi a falta de correção da tabela do Imposto de Renda durante o governo anterior. A cena, que se tornou viral em poucos minutos, vai muito além de um mero confronto retórico; ela revela a profunda divisão sobre quem deve, de fato, financiar o Estado brasileiro.

O ponto de ignição do conflito foi a fala do deputado Caveira, que, após criticar a criação ou aumento de what ele chamou de 24 impostos, usou o apelido jocoso que circula entre opositores do governo: “o ministro só sabe taxar, não é à toa que o apelido do senhor no Brasil é Fernando Taxad”. A provocação, destinada a estigmatizar a política econômica do Planalto, gerou uma reação imediata do deputado Marcon (PT-RS), que por sua vez foi repreendido de forma grosseira pelo parlamentar paraense, que ordenou: “Porra, deputado, cala a boca. Quando for sua vez, você fala o que quiser”. O presidente da comissão, Rodolfo Nogueira (PL-MS), tentou acalmar os ânimos, mas o clima já estava instalado: o espaço do debate técnico havia sido sequestrado pelo conflito político.

Ao responder, Haddad escolheu o caminho do contra-ataque direto. Em vez de apenas negar a pecha de “Taxad”, o ministro redirecionou o foco para o que classifica como a verdadeira injustiça fiscal. “Sobre taxação, a maior vagabundagem que foi feita nesse país, que isso taxa de forma cruel, é não corrigir a tabela do Imposto de Renda”, afirmou, acusando o governo Bolsonaro de ter ficado quatro anos sem o reajuste, o que, em sua visão, onerou massivamente os trabalhadores. Em seguida, traçou uma linha clara de seu projeto: “Agora, taxar bet, super rico e banco, para isentar quem o Bolsonaro cobrou? Isso o senhor pode usar apelido à vontade”. A fala é a defesa mais nítida da estratégia de seu ministério de buscar a equidade tributária, mesmo que isso signifique enfrentar resistências ferozes.

O debate ocorreu em um momento crucial, pois o Congresso Nacional se prepara para votar a regulamentação da reforma tributária. O Plenário do Senado tem em pauta para esta quarta-feira, 24, o projeto que regulamenta a segunda parte da reforma, especificamente o Comitê Gestor do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS). Esta votação é um passo essencial para a implementação de um período-teste já em 2026. A reforma, aprovada pelo Congresso em dezembro de 2023 e regulamentada pela Lei Complementar nº 214/25 em janeiro de 2025, promete substituir um emaranhado de impostos por um sistema dual de IVA, simplificando drasticamente a vida das empresas.

No entanto, por trás da promessa de simplificação, escondem-se desafios monumentais para o setor produtivo. Especialistas consultados pela Forbes alertam que as empresas terão de ajustar sistemas internos, revisar contratos e capacitar equipes para um novo modelo que altera até a forma de contabilizar receitas. A mudança para o split payment, onde o tributo é recolhido diretamente pelos bancos no momento da transação, elimina a prática de usar o imposto como capital de giro, um impacto substancial no fluxo de caixa. O risco, segundo CEOs de empresas de tecnologia, é que companhias que não se prepararem a tempo possam enfrentar bloqueios operacionais já em janeiro de 2026.

A tensão na audiência reflete uma disputa narrativa mais ampla sobre o papel dos tributos. De um lado, a oposição enxerga na série de medidas propostas por Haddad – que incluem a taxação de dividendos, fundos exclusivos e a reformulação de tributos sobre o consumo – um sinal de aumento de carga e desestímulo aos investimentos. Do outro, o ministro e sua eque defendem que estão deslocando o peso do fisco do consumo e da produção para a renda e o patrimônio, corrigindo distorções históricas e promovendo justiça fiscal. O TRATEAQUI Notícias apurou que, internamente, a equipe econômica avalia que a batalha comunicativa é tão importante quanto a técnica, daí a disposição de Haddad para o embate direto.

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O resultado prático de confrontos como o de hoje é o aumento da polarização em torno de uma agenda que, em tese, deveria ser consensual pela sua importância para a modernização do país. Enquanto deputados trocam farpas e o ministro responde com ironia, a implementação da reforma tributária – considerada por economistas de diversos espectros como fundamental para a eficiência econômica – avança em meio a um ruído ensurdecedor. A pergunta que fica é se a estratégia de choque de Haddad, embora eficaz em mobilizar sua base, não estaria dificultando ainda mais os acordos necessários para aprovar partes sensíveis de sua agenda no Legislativo, onde o governo precisa de votos além de sua bancada fiel.

O legado dessa audiência será medido não pelos insultos trocados, mas pela capacidade do governo em converter o discurso de justiça fiscal em resultados concretos que beneficiem a economia como um todo. Se a reforma trouxer a prometida simplificação e redução de litígios, Haddad poderá reivindicar o sucesso. Se, por outro lado, a transição for caótica e a carga tributária líquida aumentar para o cidadão comum, o apelido “Taxad” poderá se tornar uma âncora política insuportável. A arena política decidiu o espetáculo, mas o mercado e o bolso do contribuinte darão o veredito final.

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