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O governo sinaliza nova investida contra o estatuto da Petrobras para reter dividendos extraordinários, e o mercado responde com queda de mais de 4% nas ações. O embate expõe o fosso entre a lógica da eficiência e o apetite estatal por recursos da maior empresa do país.

A semana começou com uma nova demonstração de que a Petrobras, mais do que uma gigante do petróleo, tornou-se o campo de batalha central entre duas visões antagônicas de Estado. De um lado, a governança corporativa construída ao custo de décadas de escândalos e reformas, que consagrou a empresa como uma das mais rentáveis do mundo, com disciplina de dividendos e respeito aos acionistas minoritários. De outro, a tentativa recorrente do atual governo de transformar a estatal em um braço financeiro do Tesouro, usando seu fluxo de caixa bilionário para financiar projetos de infraestrutura de baixa rentabilidade, com viés político e pouco lastro técnico. No último dia 9 de abril, a Bloomberg e o Valor Econômico divulgaram que o Ministério de Minas e Energia prepara uma nova proposta de alteração no estatuto social da Petrobras, com o objetivo explícito de facilitar a retenção de dividendos extraordinários – aqueles que excedem a política mínima de pagamento. A reação do mercado foi imediata e contundente: as ações preferenciais (PETR4) caíram 4,2% no after-market, e o risco-Brasil (CDS) ampliou 12 pontos-base.

O que está em jogo vai muito além de um balanço trimestral. A Petrobras, desde a aprovação da Lei das Estatais (Lei 13.303/2016) e as mudanças implementadas após a Operação Lava Jato, consolidou um modelo de governança que serviu de referência para o mundo emergente. Conselho de Administração independente, política de dividendos previsível, preços de combustíveis alinhados ao mercado internacional e um rígido processo de aprovação para investimentos – tudo isso permitiu que a empresa reduzisse sua alavancagem, aumentasse sua produção no pré-sal e distribuísse mais de R$ 200 bilhões em dividendos nos últimos cinco anos. O Tesouro Nacional, como acionista controlador, obviamente se beneficiou dessa política, recebendo bilhões em proventos que ajudaram a reduzir a dívida pública. Mas o apetite do governo atual é maior do que a conta corrente do Tesouro permite, e a Petrobras, com seu caixa robusto, aparece como um cofre tentador para financiar gastos que o Orçamento não comporta.

A governança corporativa da Petrobras não é um luxo ou uma ameaça à soberania nacional. Pelo contrário, é a garantia de que a empresa possa continuar investindo no pré-sal, gerando empregos e pagando tributos. Quando o governo insiste em alterar o estatuto para reter dividendos, ele está enviando um sinal claro aos investidores institucionais – fundos de pensão americanos, soberanos do Oriente Médio, gestoras europeias – de que o respeito aos contratos e aos direitos de propriedade é condicional, e que a caneta do Executivo pode a qualquer momento mudar as regras do jogo. A queda de 4,2% da PETR4 não é um movimento especulativo de curto prazo; é a precificação de um risco permanente de interferência política. E esse risco, uma vez incorporado, não se dissipa rapidamente. A experiência brasileira com a antiga Petrobras, antes da Lava Jato, mostra que a desconfiança do mercado pode levar anos para ser revertida e custa caro em termos de custo de capital.

Os defensores da intervenção argumentam que a retenção de dividendos extraordinários é necessária para que a Petrobras invista em novas frentes, como a transição energética, a produção de combustíveis verdes e a expansão da malha de dutos. O ministro de Minas e Energia declarou, em entrevista ao Valor Econômico, que “a empresa não pode ser apenas uma máquina de distribuir dinheiro para acionistas enquanto o país precisa de infraestrutura”. A declaração, à primeira vista razoável, omite um fato incômodo: os projetos defendidos pelo governo são justamente aqueles com menor taxa interna de retorno (TIR) e maior risco técnico. A produção de hidrogênio verde no Nordeste, por exemplo, exige investimentos da ordem de R$ 30 bilhões e não tem mercado consumidor garantido. A construção de novas refinarias, em um momento em que o mundo se descarboniza, é uma aposta contrária às tendências globais. Em outras palavras, o governo quer usar o dinheiro dos acionistas – incluindo minoritários privados – para financiar projetos de cunho político que o próprio mercado rejeita como economicamente inviáveis.

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Há um princípio da economia liberal que o discurso desenvolvimentista frequentemente ignora: o capital não é um recurso gratuito, e sua alocação deve ser decidida por quem corre o risco. Os acionistas da Petrobras, ao comprarem ações, aceitaram os riscos do negócio – oscilação do petróleo, acidentes ambientais, mudanças regulatórias – em troca de uma expectativa de retorno. Essa expectativa é formada com base nas regras vigentes, incluindo o estatuto social e a política de dividendos. Quando o governo, na condição de controlador, muda as regras unilateralmente para reter lucros e direcioná-los para projetos que não estavam no plano de negócios aprovado pelo conselho, ele está, em essência, expropriando os acionistas minoritários. Não de forma violenta ou ilegal – as alterações estatutárias seguem os trâmites formais –, mas na prática, com o mesmo efeito: os minoritários veem seu direito de propriedade diluído em investimentos de baixo retorno.

A propriedade privada é um pilar do estado de direito e da tradição ocidental-cristã. No caso de empresas de capital aberto com controle estatal, a proteção aos minoritários é ainda mais crucial, porque o poder do controlador é imenso e a tentação de usá-lo para fins extraempresariais é constante. A Lei das Estatais foi criada exatamente para conter essa tentação, estabelecendo exigências de transparência, mandatos fixos para conselheiros, quarentena para ex-dirigentes e a obrigação de que os investimentos sejam aprovados com base em critérios estritamente econômico-financeiros. O que o governo propõe agora, ao alterar o estatuto para facilitar a retenção de dividendos, é uma flexibilização dessas regras na prática – pois se o controlador pode reter lucros sem justificativa técnica robusta, ele pode direcionar o caixa para onde bem entender, contornando os freios institucionais.

Os números são eloquentes. A Petrobras encerrou 2025 com um caixa líquido de R$ 85 bilhões e uma relação dívida líquida/EBITDA de apenas 0,6 – indicadores de excelência para qualquer empresa do setor. A política de dividendos em vigor garante o pagamento de no mínimo 25% do lucro líquido ajustado, mas na prática a empresa tem distribuído entre 40% e 60% nos últimos anos, gerando um dividend yield superior a 12% ao ano – um dos maiores do mundo. Esse fluxo de caixa para os acionistas, incluindo o Tesouro Nacional, tem sido fundamental para que o governo feche suas contas sem recorrer a expedientes fiscais ainda mais danosos. Em 2025, a União recebeu cerca de R$ 35 bilhões em dividendos da Petrobras, o equivalente a quase 0,4% do PIB. Se o governo passar a reter esses recursos, terá que compensar a perda com mais emissão de dívida ou com cortes em outras despesas – o que politicamente é muito mais difícil do que simplesmente “pegar dinheiro da Petrobras”.

A não pode ser vista como um ato isolado. É parte de um padrão mais amplo de erosão da confiança nas instituições econômicas brasileiras. Em menos de três anos, o governo já tentou alterar a Lei das Estatais por medida provisória (arquivada após pressão do Congresso), interferiu na escolha do presidente da Petrobras três vezes, e promoveu mudanças na política de preços de combustíveis que introduziram subsídios implícitos custeados pela própria empresa. Cada um desses episódios foi seguido por uma desvalorização cambial, fuga de capitais e elevação dos juros futuros – um custo macroeconômico que recai sobre todos os brasileiros, não apenas sobre os acionistas. A tentativa atual de mexer nos dividendos é apenas o capítulo mais recente de uma guerra de desgaste contra a governança corporativa.

O que está em risco é a credibilidade do Brasil como destino de investimentos de longo prazo. A Petrobras responde por cerca de 10% do investimento privado formal no país e é a empresa brasileira mais conhecida no exterior. Quando o governo sinaliza que não respeita as regras de governança da própria estatal, os investidores estrangeiros extrapolam esse sinal para todo o ambiente de negócios. Por que investir em uma concessão de infraestrutura se o poder concedente pode mudar as regras amanhã? Por que comprar títulos de dívida de longo prazo se o risco fiscal está intrinsecamente ligado ao apetite do governo por “pegar” recursos de empresas públicas? A reação do mercado na última quinta-feira – queda generalizada da bolsa, alta do dólar e dos contratos de swap cambial – foi um aviso claro. Se o governo insistir na mudança estatutária, o custo de captação para todas as empresas brasileiras aumentará, e a conta será paga pelos consumidores, trabalhadores e contribuintes.

Há uma ironia amarga nesse episódio. O atual governo chegou ao poder criticando a gestão anterior da Petrobras por “entregar a empresa a acionistas internacionais” e “abrir mão do controle estratégico”. Mas foram exatamente as regras de governança corporativa, que tanto desprezam, que permitiram à Petrobras acumular caixa, reduzir dívidas e se tornar uma empresa tecnicamente preparada para os desafios da transição energética. Ao tentar desmontar essas regras, o governo está matando a galinha dos ovos de ouro. Sem previsibilidade, sem respeito aos minoritários, sem freios ao apetite do controlador, a Petrobras voltará a ser o que era nos anos 2000 e 2010: uma empresa inchada, ineficiente, usada como cabide de empregos e instrumento de política fiscal disfarçada. Os acionistas privados venderão suas ações, o preço do papel despencará, e a empresa perderá capacidade de investimento – exatamente o oposto do que os desenvolvimentistas dizem desejar.

O lição é clara e se repete na história econômica brasileira: intervencionismo estatal em empresas produtivas sempre termina mal. Quando o governo usa a Petrobras para segurar preços de combustíveis, gera escassez e desabastecimento. Quando usa a Eletrobras para subsidiar tarifas, compromete investimentos em geração. Quando usa o BNDES para financiar campeões nacionais, acumula calotes bilionários. A tentativa de reter dividendos extraordinários segue o mesmo padrão: trocar a disciplina de mercado por uma alegada “prioridade nacional” que, na prática, serve apenas para aliviar a pressão fiscal imediata sem resolver os problemas estruturais. O conservadorismo fiscal e o liberalismo econômico não são ideologias abstratas; são a constatação de que o respeito às regras, aos contratos e à propriedade é a única via sustentável para o desenvolvimento de longo prazo.

O que fazer, então? A resposta não é pedir a privatização da Petrobras – que é uma decisão que cabe ao Congresso e à sociedade, e que não está na agenda de curto prazo. Mas é possível, dentro da lei, fortalecer os mecanismos de proteção aos minoritários e exigir que o Conselho de Administração, inclusive os conselheiros indicados pelo governo, cumpra seu dever fiduciário. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) deve ser acionada para avaliar se a proposta de alteração estatutária não configura abuso de poder de controle. O Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União pode questionar a legalidade da retenção de dividendos sem lastro em um plano de investimento tecnicamente justificado. E os acionistas minoritários – fundos de pensão, gestoras independentes, investidores pessoa física – podem e devem levar suas queixas ao mercado de capitais e, se necessário, à arbitragem.

O antiga máxima do direito comercial: “quem controla responde pelos abusos”. O governo, como acionista controlador, não está acima da lei. A Lei das Estatais existe para ser cumprida, não para ser contornada por manobras estatutárias. O TRATEAQUI Notícias defende que o Congresso Nacional convoque com urgência o presidente da Petrobras e o ministro de Minas e Energia para prestar esclarecimentos. Defende também que a Advocacia-Geral da União emita parecer vinculante sobre os limites da retenção de dividendos em empresas de capital aberto. E defende, acima de tudo, que o respeito à governança corporativa seja tratado como política de Estado, não como moeda de troca em negociações políticas de curto prazo.

O crepúsculo do intervencionismo na Petrobras ainda não chegou. O governo pode recuar diante da pressão do mercado e do Congresso, como recuou em tentativas anteriores. Mas o fato de a ideia ser aventada repetidamente é um sinal de que o diagnóstico liberal sobre o apetite estatal está correto: enquanto houver dinheiro em caixa, haverá quem queira pegá-lo. A única maneira de proteger a empresa e seus acionistas é com instituições fortes, vigilância constante e um compromisso inabalável com os princípios do livre mercado e da propriedade privada. O resto é conversa desenvolvimentista de quem nunca geriu um balanço na vida.

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