A sanção da lei para a Copa Feminina de 2027 e o início dos treinos da Seleção nos EUA escancaram a instrumentalização política do futebol brasileiro às vésperas de um ciclo eleitoral decisivo.
O futebol, frequentemente chamado de pátria de chuteiras, tem servido historicamente como o palco preferencial para que governos tentem capturar a simpatia popular através do entretenimento. Com a recente sanção da lei que viabiliza a organização da Copa do Mundo Feminina de 2027 no Brasil, o Palácio do Planalto não apenas cumpre um trâmite administrativo, mas sinaliza a intenção de manter o país sob a égide dos grandes eventos esportivos. Paralelamente, enquanto a Seleção Brasileira masculina inicia sua fase de preparação nos Estados Unidos para a Copa de 2026, observamos o movimento de uma máquina que busca, na visibilidade internacional dos gramados, um verniz de competência e unidade nacional que muitas vezes falta na gestão econômica e institucional do país.
É inegável que a organização de um mundial traz consigo expectativas de movimentação turística e aquecimento do setor de serviços, movimentando bilhões de reais na economia. Contudo, é imperativo separar o entusiasmo esportivo da realidade de um calendário que, em 2026, será pautado pela disputa eleitoral. Para o governo, a associação com o sucesso esportivo atua como um eficiente mecanismo de transferência de popularidade. Historicamente, períodos de euforia esportiva obscurecem falhas estruturais, e a estratégia de utilizar a visibilidade dos atletas para impulsionar a imagem da administração federal é um recurso manjado, mas que continua sendo aplicado com vigor para tentar conquistar o eleitorado conservador e também o público mais alinhado às pautas identitárias que o esporte feminino carrega.
A eficácia dessa manobra dependerá, contudo, do comportamento dos indicadores fiscais até o momento das eleições. O país não pode se sustentar apenas em eventos ou na mística da Seleção Brasileira. A responsabilidade fiscal e a clareza sobre o futuro do Brasil são demandas que o entretenimento não consegue suprir permanentemente. O torcedor, que hoje se mobiliza com as notícias da Copa, é o mesmo cidadão que sente o impacto do custo de vida e da instabilidade política. A utilização política do esporte, embora eficaz no curto prazo, corre o risco de se tornar um tiro no pé se o cenário econômico não oferecer a contrapartida de prosperidade que a população exige.
Portanto, o desafio do governo é equilibrar as promessas de organização impecável para os eventos de 2026 e 2027 com a necessidade premente de entregar resultados concretos em áreas vitais como segurança e infraestrutura. O xadrez eleitoral exige que cada movimento no campo esportivo seja calculado para não parecer desespero populista. A transparência nos gastos com a infraestrutura das Copas será, certamente, um dos principais pontos de fiscalização pela imprensa e pelos órgãos de controle. O esporte continuará a ser, como sempre, um espelho da sociedade, e em 2026, esse espelho refletirá, inevitavelmente, o grau de satisfação do povo com o rumo que o país tomou.
Ao final, o sucesso ou fracasso dessa aposta política será medido não pelas medalhas ou pelos troféus, mas pela capacidade do governo de demonstrar que o Brasil possui um projeto sólido para além das quatro linhas. O campo é um ambiente de meritocracia, onde o desempenho é mensurado por números e metas claras, algo que a gestão pública brasileira ainda se esforça para alcançar. A verdadeira Copa será disputada nas urnas, onde a opinião pública decidirá se o entretenimento foi suficiente para mascarar a falta de uma agenda de reformas estruturais de longo prazo. O esporte é uma ferramenta poderosa, mas é um péssimo substituto para uma administração pública voltada ao crescimento e à liberdade econômica.






